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Aos poucos, as soluções de Inteligência Artificial vão aumentando sua presença nas empresas brasileiras e promovendo mais segurança e saúde nos ambientes de trabalho de diferentes segmentos

Quem já ouviu falar em tecnologias disruptivas? O termo, comum principalmente para os que atuam na área de Tecnologia da Informação, está se popularizando também na área de Segurança e Saúde do Trabalho referindo-se a inovações tecnológicas que provoquem ruptura aos padrões e modelos estabelecidos no mercado. Elas incluem as soluções de Inteligência Artificial que vêm sendo adotadas na prevenção de acidentes e doenças ocupacionais. Avanço tecnológico que permite que sistemas simulem uma inteligência similar à humana, a IA tem ganhado destaque no segmento prevencionista por meio de softwares que vem auxiliando os trabalhadores em suas atividades, servindo principalmente como uma ferramenta para realizar classificações e predições. Mesmo que ainda de forma ‘tímida’ no País, tem possibilitado um melhor controle dos perigos nos ambientes laborais. Como toda novidade, há muito o que adaptar, tanto por parte dos empregadores quanto dos empregados. É preciso separar o ‘joio do trigo’, para adotar a IA que realmente traga benefícios em relação à SST, capacitando os colaboradores para as novas tecnologias, tanto os que a utilizarão no dia a dia quanto os profissionais prevencionistas, que precisarão avaliar os ganhos e os riscos de tais tecnologias, num cenário em que a gestão ganha cada vez mais protagonismo.

Um estudo realizado pela consultoria norte-americana FrontierView aponta que, caso adote todas as tecnologias de Inteligência Artificial hoje disponíveis, o Brasil pode crescer até duas vezes mais rápido nos próximos 10 anos. Realizada a pedido da Microsoft e divulgada no final do ano passado, a análise indica que a adoção em massa seria capaz de acelerar a economia nacional pós-pandemia. Isso por meio da geração de empregos com mais qualificação, aumento da produtividade e consequente crescimento econômico.

Embora tal cenário seja pouco provável, visto que dependeria de o setor público e a iniciativa privada adotarem 100% das inovações em IA, o diretor de pesquisa da América Latina na FrontierView, Pablo Gonzalez Alonso, destaca que a transformação digital ganhou força no País devido às mudanças de hábito impostas pelo novo coronavírus.

Mesmo não se tendo ainda um levantamento específico sobre a aceitação e a adoção da Inteligência Artificial em prol da Segurança e Saúde do Trabalho, sabe-se que a tendência se repete dentro das empresas. As iniciativas que começam a ser adotadas em setores pontuais, aos poucos vão evoluindo e servindo ao propósito do setor de garantir ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis. E, com a Covid-19, novas soluções foram desenvolvidas e aplicadas para prevenir a doença e acompanhar a recuperação dos colaboradores infectados, até mesmo por aqueles empregadores que têm mais dificuldade para acompanhar e confiar na evolução tecnológica.

Como tudo que é novo, a IA pode gerar desconfiança em alguns casos, mas precisa ser estudada para que se avalie como pode ser aproveitada da melhor maneira na missão dos prevencionistas de salvar vidas. Assim como o impacto que pode trazer para a área, como a geração de possíveis novos riscos e nas competências exigidas dos técnicos, engenheiros, médicos do Trabalho e demais especialistas voltados a prevenir acidentes e doenças ocupacionais.

O QUE É
Conforme lembra o médico do Trabalho Cristiano Motta, o termo Inteligência Artificial é atribuído ao cientista da computação John McCarthy que, em 1956, criou a expressão para referir-se à capacidade de máquinas resolverem problemas que, até então, apenas os seres humanos conseguiam solucionar. “De um modo mais abrangente, pode-se dizer que ela corresponde à capacidade das máquinas de aprender, detectar padrões, analisar e tomar decisões relacionadas a um contexto específico, de forma análoga à inteligência humana”, detalha. Dentre suas subáreas, Guilherme Salgado, também médico do trabalho, destaca os conceitos de aprendizado de máquinas (ou machine learning) e de redes neurais artificiais (ou deep learning), ambas adotadas nas soluções de SST disponíveis atualmente no mercado. O primeiro é um sistema que pode modificar seu comportamento de forma autônoma com base na sua própria experiência, a partir do estabelecimento de regras lógicas. Já o segundo, configura parâmetros básicos sobre os dados e treina o computador para aprender sozinho por meio do reconhecimento de padrões em várias camadas de processamento incluindo o reconhecimento de fala, identificação de imagem e previsões. “Podemos dizer que a IA é uma excelente ferramenta para realizar classificações e predições. O que é muito importante porque bons modelos preditivos nos permitem intervir antes do problema já ter se consolidado e, sem depender de nenhuma interação humana, possibilita detectar e alertar para os riscos de acidentes e perigos no ambiente de trabalho. Além de identificar adoecimentos, epidemias, demandas de saúde e futuros riscos”, considera Salgado, que é CEO da 3778, uma empresa de tecnologia que oferece soluções baseadas em Inteligência Artificial para a área da saúde.

Considerando a IA como um dos grandes saltos tecnológicos da história, o higienista ocupacional Osny Camargo acredita que seu impacto será maior do que o obtido até agora com a máquina a vapor, o computador e a internet. “Essa tecnologia está sendo embarcada em equipamentos, ferramentas e atividades de trabalho. Há também oportunidade para desenvolvimento de mais ferramentas específicas, que possam acompanhar as atividades do trabalhador frente a zonas perigosas e de risco à sua integridade física e saúde”, pondera Osny que também é engenheiro de segurança e coordenador de cursos da Universidade Proteção. Ele enfatiza que esta é mais uma oportunidade de integração da segurança nos processos.

APLICAÇÕES
Ainda que de forma tímida na área de SST brasileira, Osny percebe que a Inteligência Artificial tem sido adotada em equipamentos de medições de agentes ambientais, tanto para situações de riscos da exposição quanto acoplados a alarmes que permitem a rápida atuação das equipes de emergência. Já a gerente do Centro de Inovação Sesi em Minas Gerais, Carla Siqueira, cita a presença em processos produtivos de robôs colaborativos com sensores sensíveis que indicam a aproximação humana impondo lentidão ou mesmo interrupção da ação dos robôs em linhas de produção com trabalhadores envolvidos no mesmo processo. “Outro exemplo de integração é o frequente uso de wearables, que possibilitam o monitoramento de dados de saúde”, lembra ela.

Salgado menciona as soluções de redes neurais artificiais que interpretam imagens de câmeras em tempo real e alertam para a falta de uso de EPIs ou procedimentos fora do padrão. Esse mesmo tipo de algoritmo também está sendo utilizado na pandemia para ver e alertar pessoas sem máscara. “A IA também tem sido utilizada junto de câmeras infravermelhas para estimar riscos de lesão muscular em determinados trabalhos”, cita.

Fabrizio Machado Pereira, diretor de educação e tecnologia da FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) reforça o uso de IA para análise e predição de riscos, explicando que essas tecnologias se baseiam na avaliação profunda de dados históricos, com o uso de modelos matemáticos complexos, possibilitando o planejamento e atividades de controle de equipamentos de proteção, tanto os coletivos como individuais, em termos de efetividade e adequação aos riscos apresentados nos ambientes específicos. “Outras tecnologias possibilitam a integração de dados para que se possa gerar informações e conhecimento, facilitando, assim, o gerenciamento das questões relacionadas à segurança e à saúde dos colaboradores dentro das empresas”, comenta.

Nesses casos, segundo ele, é possível integrar informações de diversas áreas de conhecimento, formando novos entendimentos sobre uma realidade. “Seus usos mais recentes focam na promoção de comportamentos seguros nos ambientes laborais, identificando automaticamente os colaboradores e fornecendo informações, capacitações ou notificações necessárias”, afirma Pereira.

COMPETÊNCIAS
Para que a Inteligência Artificial seja eficaz, o médico do Trabalho Cristiano Motta esclarece que dependerá do modelo de dados disponível, ou seja, estruturas para processar, categorizar e analisar dados de maneira lógica. Assim como da disponibilização de grandes quantidades de dados para serem processados (Big Data) e da capacidade operacional e logística de processar as informações de forma rápida e eficiente. Osny complementa afirmando que tais levantamentos serão úteis se, após processados, permitirem tomada de decisões. “Se tivermos objetivos bem definidos a serem alcançados em prol da segurança e saúde do trabalhador, o uso da IA permitirá atingí-los de forma eficaz, acurada e precisa”, garante.

Para isso, o gerente de soluções digitais e analíticas de SMS (Segurança, Meio Ambiente e Saúde) da Petrobras, Jorge Thirige Salerno Junior, destaca a importância de um processo maduro e ativo no levantamento de ‘dores’ antes da adoção da IA voltada a um ambiente laboral mais seguro e saudável. “O que não se resume a um canal de contato ou portal de ideias, tampouco alguém da área executora no papel de definições dessas dores. Mas, sim, uma análise sobre situações reais de acidentes, impactos ao ambiente e à saúde feita por profissionais ligados ao processo de SMS”, indica.

Engenheiro civil com especialização em Análise e Gerenciamento de Projetos e Sistemas, ele também defende a necessidade de que a Inteligência Artificial seja desmistificada, de maneira que os prevencionistas saibam que podem contar com esses recursos. “Um profissional qualificado em SMS precisa saber fazer consultas em sistemas, atuar na construção de painéis e, sobretudo, conhecer as possibilidades tecnológicas disponíveis para o seu processo ou tipicidade de trabalho, mas não apenas habilidades técnicas precisam ser ressaltadas. É cada vez mais importante valorizarmos habilidades comportamentais, o que vem sendo chamado de soft skills. Para nós do SMS, isso é valor”, comenta.

INTERDISCIPLINARIDADE

Além da sintonia dos especialistas em Segurança e Saúde do Trabalho, Osny fala da importância da colaboração entre equipes, apontando como maior desafio, e maior benefício que se pode conquistar com o uso das tecnologias de Inteligência Artificial, a integração dos processos fabris e de serviços com a gestão de SST. “Com mentes abertas, os prevencionistas devem aplicar as tecnologias nos processos de identificação, avaliação e controle de riscos de acidentes”, enfatiza.

Carla Siqueira também aponta como desafio e oportunidade, o planejamento de transformação digital das empresas por meio de uma equipe multidisciplinar, tratando o assunto como estratégico a partir da estrutura organizacional. “Um dos objetivos da utilização de novas tecnologias é tornar o processo mais ágil e eficaz. Se não houver um balanceamento e equilíbrio com áreas integradas, toda a agilidade pretendida em uma área poderá gerar um grande gargalo em outra. E, por consequência, sobrecarga física e mental dos trabalhadores”, alerta a gerente do Centro de Inovação SESI em Minas Gerais.

Também é preciso levar em consideração o fornecedor das soluções de Inteligência Artificial em Segurança e Saúde do Trabalho, avaliando a assistência técnica disponível e o ciclo de vida da inovação. Engenheiro que atua há décadas no setor de mineração Maury de Souza Junior acrescenta, ainda, a relevância em se examinar a constituição do provedor da tecnologia baseada em IA, visto que muitas são startups. “Com a velocidade de transformação que estamos experimentando, a empresa pode desaparecer subitamente e deixá-lo em uma situação complicada. Portanto, é importante avaliar bem e não se render ao modismo e ferramentas que garantem resolver todos os seus problemas”. Sócio da Summo Quartile Consultoria, ele comenta em seguida sobre a solução Guardhat, junto a outros profissionais que apresentarão ferramentas de Inteligência Artificial voltadas à Segurança do Trabalho e Saúde Ocupacional, suas oportunidades, desafios e como colaboram para um ambiente laboral mais seguro e saudável.

Foco na predição

Muitas soluções buscam prevenir a ocorrência de acidentes laborais

Atualmente são tantas as tecnologias que fazem parte do dia a dia de todos, seja no trabalho ou na vida pessoal, que fica difícil lembrar de quando elas não eram utilizadas, tanto para as tarefas corriqueiras quanto para as mais complexas. Para o futuro do trabalho, no entendimento da gerente do Centro de Inovação Sesi em Minas Gerais, Carla Siqueira, sua adoção é inevitável. “Inovações recentes modificaram de modo sensível a vida de todos os estratos da sociedade, em especial no setor industrial, nas relações de trabalho, nas formas de lazer, na educação e no processo de avaliação saúde-doença. E sob o aspecto da Segurança do Trabalho agregou novas perspectivas de proteção ao trabalhador”, observa.

Diretor de vendas da Industrial Scientific para a América Latina, Marcelo Piagentini também acompanha essa revolução que vem ocorrendo nos ambientes laborais com investimentos em tecnologias que visam a criação das “fábricas inteligentes”, pontuando que a ST não poderia ficar de fora, uma vez que trata da preservação da vida. “A Segurança do Trabalho é encarada hoje como um valor pela maioria das empresas, que vêm perseguindo a eliminação de acidentes, principalmente os graves e fatais. Sem dúvida alguma, a aplicação de novas tecnologias, envolvendo hardwares e softwares de última geração e computação na nuvem têm contribuído, e muito, para a criação de ambientes mais seguros nas empresas”, avalia.

Entre as soluções da Industrial Scientific que utilizam a Inteligência Artificial para garantir mais proteção aos trabalhadores de áreas industriais está o iNet Now, que permite o monitoramento ‘ao vivo’ dos usuários de detectores de gás (foto ao lado). Voltado a atividades em áreas industriais como petroquímicas e siderúrgicas, mineração, além do trabalho remoto de funcionários de empresas de telecomunicações, por exemplo, a inovação envia em tempo real, para a nuvem, alarmes nos casos de detecção da presença de gás, pânico e situações de ausência de movimento do trabalhador. “A notificação traz informações precisas, como tipo de alarme, nome do usuário, e possível localização geográfica dele, permitindo que o mesmo seja assistido e/ou resgatado, o mais rápido possível”, explica Piagentini. Destaca ainda que o iNetNow possibilita a gestão dos riscos, evitando-se futuros incidentes, por meio de ferramentas analíticas que determinam as localidades da planta onde têm ocorrido mais alarmes.

EM TEMPO REAL
Exclusivo para a indústria, o Safer One é outro produto da Industrial Scientific que se utiliza da Inteligência Artificial para monitorar em tempo real as condições atmosféricas de determinada planta industrial. “Ferramenta única no mercado, trata-se de um software em nuvem que identifica eventuais vazamentos oriundos de detectores fixos de gás, sem que necessariamente sejam detectores da Industrial Scientific”, aponta o diretor de vendas para a América Latina. Segundo Piagentini, entre seus benefícios, está a rápida identificação de possíveis vazamentos e a predição e modelagem do comportamento da possível ‘pluma’ do contaminante liberado, em função de fatores como o tipo de gás, taxa de liberação, posição do vazamento e condições meteorológicas. “O contato com gases tóxicos como CO, HS, amônia e cloro, pode matar em minutos. Sendo assim, ser alertado que alguém está em perigo, conhecendo o risco e sabendo onde a pessoa se encontra é fundamental para que as equipes de resgate cheguem a tempo e consigam salvar essa vida”, enfatiza.

Com mais de 30 anos de experiência no setor de mineração, o engenheiro Maury de Souza Junior também concorda com a importância do acompanhamento dos colaboradores em locais remotos e possivelmente nocivos. Vivenciando a transformação da Segurança do Trabalho com o avanço tecnológico nas últimas décadas, ele comenta que cada dia mais sensores, medidores, sistemas de voz e imagem, infraestruturas de comunicação de dados e plataformas de tratamento das informações se integram e colaboram para garantir a segurança dos trabalhadores que realizam a extração de minerais.

Sócio da Summo Quartile Consultoria, que representa a Guardhat na América Latina, ele menciona como exemplo um capacete inteligente (foto abaixo), que agrega a Inteligência Artificial e a IoT (Internet das Coisas), que se configura quando objetos físicos são incorporados com sensores, software e outras tecnologias com o objetivo de conectar e trocar dados com outros dispositivos e sistemas, com soluções similares às da Industrial Scientific.

ATUAÇÃO PROATIVA
Com sensores industriais, tecnologia de posicionamento avançado e sistema de geolocalização RTLS (Real Time Location System), o capacete foi lançado nos Estados Unidos e no Brasil em 2018, e vem sendo aprimorado, ganhando novas aplicações. Permite que várias utilidades sejam aproveitadas em tempo real, como: rastreamento, isolamento virtual de área, detecção de queda, emergência, evacuação da área, monitoramento das condições ambientais (temperatura, pressão, detecção de gases) e detecção do uso de EPIs. “A solução Guardhat consiste em coletar dados em tempo real, pelo uso de dispositivos (capacete, tag, aplicativo para celular ou dispositivo de terceiros), e enviá-los à plataforma Kyra. Coração da solução, ela analisa todas as informações em real time, comparando-as com regras estabelecidas de acordo com sua aplicação e transformando-as em dados que são repassados para o centro de controle de segurança”, detalha Maury. A partir disso são geradas as ações e os alertas necessários para preservar a Segurança e a Saúde do Trabalho. O sistema também permite a geração de relatórios com todos os resultados obtidos, possibilitando uma atuação proativa do gestor e do profissional de SST.

A ideia para esta inovação teve seu pontapé inicial em Detroit/EUA no ano de 2014, quando buscou-se um capacete melhor para os trabalhadores que atuavam em um alto-forno, fundindo ferro a 1.600°C utilizando o EPI padrão disponível no mercado. “Registrando as condições de riscos do ambiente de trabalho, a solução Guardhat apontará oportunidades de melhorias, permitindo um ambiente seguro e saudável para o trabalhador”, pondera. Ainda em fase de testes no Brasil, a solução já é utilizada nos EUA, Irlanda e França.

Mas para sua completa eficácia, o engenheiro chama a atenção para a importância de que os trabalhadores estejam envolvidos e comprometidos com o uso adequado da tecnologia, entendendo que o maior objetivo é preservar sua saúde e segurança. “Caso isso não aconteça, haverá o risco de se alimentar informações erradas no sistema, que pode levar a decisões e políticas errôneas por parte dos gestores”, alerta Maury. Mesmo que seja possível identificar de onde os dados inadequados estão vindo e aplicar medidas educativas para explicar a importância do correto uso da ferramenta, o comprometimento é essencial.

TÉCNICO VIRTUAL
Head de Saúde e Segurança que lidera a frente de Transformação Digital do RH na Oi, Paulo Roberto de Souza Junior aponta como outro desafio para o total aproveitamento da Inteligência Artificial, o principal ao seu ver, o ambiente altamente regulado das empresas. “O excesso de burocracia, seja legal ou que infelizmente os profissionais da área de SST têm sustentado ao longo dos anos, cria um bloqueio criativo nas equipes, o que impossibilita a disruptividade e inovação na criação de novos processos”, avalia. Ainda vendo poucas organizações com condições para promover a aplicação da Inteligência Artificial em prol da prevenção no Brasil, reforça que, para que ela seja usufruída em toda a sua potencialidade, o tratamento de dados e disponibilidade de informações de qualidade são pontos chave para a criação de conhecimento organizacional que gere valor e melhore a experiência dos empregados.

Afirmando que a Oi carrega em seu DNA ser digital e promover inovação, Paulo Roberto garante que as soluções tecnológicas perpassam todos os processos da empresa. Na área prevencionista, destaca o Téo, um chatbot que surgiu da necessidade de adequar o cenário de grande capilaridade da empresa à gestão de incidentes e outras questões ligadas à área de Gente e Gestão. “Mais precisamente, quanto ao registro de ocorrências no trabalho, trata-se de um Técnico de Saúde e Segurança Virtual que consegue resolver problemas dos colaboradores, assumindo o papel de interlocutor direto com o especialista mais próximo da região a ser atendida”, resume.

O assistente virtual pode ser utilizado por qualquer empregado a partir de computadores ou smartphones para interagir e resolver dúvidas e atendimentos relacionados aos temas de SST. Com a implantação da COT (Comunicação de Ocorrências do Trabalho) via Téo, a área de SST passou a obter as informações das ocorrências de forma clara e ágil. O que possibilitou a automação de todo o processo, começando pela criação do workflow digital de acidentes, em que os dados coletados são tratados e convertidos através de ferramentas de gestão do conhecimento e modelos preditivos. “Trazendo eficiência e sinergia ao processo, o Téo proporciona o envolvimento de todas as partes interessadas, desde o nível operacional até a liderança”, comemora.

Além de colher a percepção dos usuários das soluções de Inteligência Artificial para comprovar sua eficiência, a Oi ainda possui um grupo de trabalho para desdobramentos dos objetivos estratégicos pela metodologia OKR (Objectives and Key Results).

“Antenada com relação à inovação, a área de Saúde, Segurança de Serviço Social lidera a frente de Inteligência Artificial para todo o RH, mostrando, além do protagonismo nas iniciativas digitais, que podemos sim, quebrar as barreiras da burocracia e conservadorismo, trazendo otimização e redução de custos para a empresa”, completa Paulo Roberto.

Os investimentos da empresa em IA na SST renderam a distinção Ouro do Prêmio Proteção Brasil 2020 na categoria Ações Preventivas e Corretivas em SST.

A.N.G.E.L.
Engenheiro de Segurança do Trabalho com mais de 11 anos de experiência em grandes obras no segmento de oléo e gás, Tarcísio Caddah presta consultoria e atua com tecnologias voltadas à SST há alguns anos. Nesse meio tempo, viu startups com soluções inovadoras de Inteligência Artificial fracassarem, não por não serem promissoras, mas por não levarem em conta a dinâmica das demandas de Segurança e Saúde do Trabalho e a rotina fabril onde seriam aplicadas.

Hoje ele faz parte do grupo de especialistas da área de SST e da Engenharia de Softwares IA que idealizou o A.N.G.E.L. (Autonomous Network Gear with Expert Level). Criada para ser uma ferramenta de auditoria autônoma realizada por máquina, o A.N.G.E.L. identifica os padrões do comportamento humano seguro durante o desempenho da atividade do trabalhador em cada frente de serviço durante todo o tempo. “Assim como as ferramentas de IA aplicadas aos sites de vendas on-line identificam o padrão do comportamento do consumidor e o momento em que ele está mais propenso a realizar uma compra, o A.N.G.E.L. identifica o padrão do comportamento seguro do trabalhador e, ao detectar a redução desse padrão, permite a todos os profissionais de SST ou mesmo ao próprio trabalhador auditado, o reconhecimento da existência do desvio”, explica. Desse modo, possibilita que o padrão seguro desejado seja retomado e que os desvios não se tornem parte da rotina, impedindo que o cenário que resulta em acidentes se instale de maneira silenciosa.

O objetivo, segundo Caddah, é atuar onde as limitações humanas são uma realidade intransponível, não na substituição do homem. “Por exemplo, não podemos estar em todos os lugares, acompanhando cada atividade, 24 horas por dia, sete dias por semana, porque isso é humanamente impossível, mas as máquinas podem. E por poderem atuar de maneira ininterrupta, podem fornecer dados que hoje são impossíveis de serem gerados. Dessa maneira, podemos fornecer a cada profissional de SST um poder totalmente único e diferenciado para tomada de decisões”.

Desenvolvida no Canadá, a ferramenta está na fase de desenvolvimento de “pilotos”, sendo observada em cada etapa como será sua aplicação no mundo real. “Estamos em conexão direta com a Câmara de Comércio Internacional porque acreditamos que ter um piloto com uma multinacional brasileira que atua no Canadá pode representar uma ação importante para agirmos simultaneamente nos dois países”, conta o engenheiro de segurança, ainda sem dar uma previsão exata para a solução estar disponível no mercado.

Ferramenta estratégica para a saúde

Soluções ajudam a prevenir adoecimentos e planejar ações

Em meio a uma pandemia que já matou mais de dois milhões de pessoas, muitas delas profissionais da saúde que lutam na linha de frente contra o novo coronavírus, soluções de Inteligência Artificial voltadas à Saúde Ocupacional ganham destaque e novos adeptos no meio laboral. Mas mesmo antes disso, o médico do Trabalho Guilherme Salgado aponta que modelos de machine learning já vêm sendo utilizados para diagnóstico precoce, predição de afastamentos, probabilidade de retorno ao trabalho e mensuração de risco de adoecimento. CEO da 3778, empresa de tecnologia que oferece soluções baseadas em Inteligência Artificial para a área da saúde, ele conta que desde 2018 desenvolve projetos como o Command Center do Hospital Sírio Libanês. E, mais recentemente, o modelo preditivo para o enfrentamento à Covid-19 para hospitais canadenses e para o programa Todos pela Saúde, uma iniciativa de diversas áreas da saúde em parceria com o SUS, que têm o objetivo de organizar as demandas dos estados para definir e realizar ações prioritárias durante a pandemia.

“Nosso modelo de predição de afastamentos, por exemplo, se utiliza de Inteligência Artificial e, com base em dados de saúde da população em questão (consultas ocupacionais, consultas em ambulatórios, etc.) constrói modelos estatísticos. E, a partir de um atestado médico entregue por um colaborador, calcula probabilidades de que ele se afaste do trabalho por mais tempo”, explica. Desse modo, segundo Salgado, torna-se possível traçar estratégias de prevenção para auxiliar o colaborador em suas demandas de saúde, sejam elas otimização do tratamento, realização de exames complementares, indicação de procedimentos, entre outras – tudo isso antes do afastamento ocorrer. “Com o uso desse tipo de ferramenta, conseguimos melhorar a assistência aos colaboradores que necessitam de auxílio, reduzir absenteísmo em algumas situações, com potenciais impactos no FAP (Fator Acidentário de Prevenção”, revela Guilherme.

CARÁTER PREDITIVO
Médico do Trabalho que atua há mais de 10 anos com tecnologia e empreendedorismo em saúde, Rodrigo Demarch entende que a utilização de soluções de Inteligência Artificial no setor é muito importante, uma vez que há uma infinidade de necessidades e problemas, o que torna a área propícia para a inovação. Cofundador e CEO da Zetta Health Analytics, ele oferece ferramentas que usam Big Data, IA e evidências científicas para a gestão da saúde populacional e corporativa. “Atualmente usamos esse tipo de tecnologia para visualizar, de forma preditiva, quais os riscos de saúde para determinada população de trabalhadores. Com isso, as intervenções podem ser potencialmente antecipadas, adquirindo caráter preditivo e não curativo. Isso, por sua vez, poderá evitar custos desnecessários, além de melhorar a experiência no cuidado com a saúde dos indivíduos”, esclarece.

Outras ferramentas de IA para o setor, conforme Cristiano Motta, são soluções relacionadas ao monitoramento de parâmetros biológicos em trabalhadores que executam atividades críticas, como uso de biosensores ou imagens, que permitem a identificação de condições de risco, como o aumento da pressão arterial ou sinais de fadiga. A informação pode ser comunicada a uma central médica para a intervenção precoce, antes que algum agravo à saúde ocorra. “No contexto da pandemia, observou-se o desenvolvimento de recursos como softwares e aplicativos para rastreamento e monitoramento de contatos próximos. É o caso de soluções de GPS de celulares ou dispositivos em crachás que capturam interações entre trabalhadores em uma unidade da empresa. Desse modo, quando há um caso suspeito ou confirmado de Covid-19, é possível rastrear quem cumpre os requisitos técnicos para ser considerado um contactable e adotar as medidas necessárias para isolamento, testagem, entre outras”, exemplifica.

Motta cita também as soluções de IA que disponibilizam questionários sobre sinais e sintomas da Covid-19 que, com base em critérios médicos, categorizam o indivíduo e orientam a ação recomendada.

CORONADADOS
Um exemplo dessas soluções criadas em meio à pandemia é o CoronaDados, desenvolvido no Centro de Inovação Sesi para Saúde, em Florianópolis/SC. De acordo com o diretor de Educação e Tecnologia da FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), Fabrizio Machado Pereira, a inspiração para a inovação veio da atuação da Coreia do Sul que, mesmo próxima do epicentro da pandemia, por meio do rastreio de sintomáticos nos primeiros dias, conseguiu testar e isolar um grande número de pessoas, controlando de forma significativa a doença. “Visto as proporções que a pandemia de Covid-19 apresentava em março de 2020, e pelo conhecimento e proximidade com as indústrias, a FIESC foi procurada para desenvolver, organizar e viabilizar um modelo que surgiu da ideia de uma dupla de desenvolvedores autônomos, que criaram uma versão inicial de um projeto em que seria possível cadastrar pela internet grupos de pessoas e um responsável que poderia informar seus sintomas”, relata.

Desse modo, pensando no desafio das indústrias catarinenses de monitorar seus trabalhadores, foi projetado o Cora, um bot (robô inteligente) que, diariamente, questiona os colaboradores com relação ao aparecimento de sintomas da Covid-19. Todas as respostas são salvas no CoronaDados, no qual as empresas, lideranças e equipes de Segurança e Saúde do Trabalho podem fazer o acompanhamento e gerenciamento de casos.

A disponibilização para todo o Estado de Santa Catarina aconteceu em maio de 2020, gratuitamente e no estilo ‘faça você mesmo’, em que um representante da empresa pode realizar o cadastro da mesma e dos trabalhadores/pessoas a ela vinculados (www.coronadados.com.br), também contando com o suporte do aplicativo Cora Sesi App. “Sua aplicação foi estruturada com uma linguagem de simples entendimento, possibilitando ser utilizado por empresas de todos os portes e segmentos. O uso da ferramenta foi fundamental para a decisão de isolamento, identificação de contactantes, testagem e manejo clínico”, observa Pereira. Desde seu lançamento, o CoronaDados já tem 517 CNPJs e 123.308 colaboradores no cadastro, de 105 municípios de Santa Catarina.

ERGONOMIA
Outra unidade do Centro de Inovação Sesi, o CIS Ergonomia, no Estado de Minas Gerais, se dedica a otimizar processos produtivos em situações de mudanças tecnológicas, novos postos de trabalho, ampliações ou alterações no layout, dentre outros objetivos. Para isso, conforme a gerente Carla Siqueira, se utiliza de simulação virtual que possibilita a visão futura do método produtivo, favorecendo as análises críticas de todas as variáveis que interferem no processo. Além das possibilidades de mudanças de rotas ainda na etapa de projeto.

“A confiabilidade da simulação virtual depende da qualidade das informações. Para isso, o método leva em consideração os fatores humanos, os aspectos de segurança, a efetiva participação dos envolvidos no processo, a redução de desperdícios de tempo e recursos e o devido equilíbrio entre as demais áreas interligadas”, esclarece Carla. Ela aponta ainda que a inovação contribui para antever riscos ergonômicos e adoecimentos, reduzir eventuais despesas com correções de processos, diminuir os riscos de acidentes de trabalho promovendo também satisfação e engajamento dos trabalhadores.

Gerente de Laminação, Logística, Excelência Operacional e Qualidade na Gerdau de Barão de Cocais, William Silva conta que a unidade trabalha em parceria constante com o Sesi para melhorar suas condições de trabalho e que, no processo de mudança de uma de suas operações, percebeu-se a oportunidade de se aproveitar a ergonomia de concepção. “Produzimos barras laminadas, perfis leves de aço e, no caso específico da nossa célula na área de laminação, as atividades de embalagem e identificação são em sua maioria manuais. Alguns desafios são o carregamento de pesos em alguns momentos e o esforço repetitivo no processo de cintamento. Durante uma visita do Sesi, conversamos sobre uma melhoria que poderia ser feita buscando o aumento de produtividade e melhores condições de trabalho para os operadores”, revela.

Durante o período de elaboração do projeto ocorreram várias reuniões com operadores para identificar o que gerava valor para quem operava e o que era necessário eliminar, segundo Silva. Com o escopo da modificação alinhada foram realizadas simulações virtuais do novo cenário de trabalho por meio de escaneamento 3D e modelagem computacional. Os operadores puderam, então, caminhar virtualmente e visualizar o projeto antes de qualquer execução física. “Um dos principais ganhos foi a satisfação dos colaboradores em participar do projeto desde o início. Assim como a redução de intervenções, redução de custos com retrabalho e ganhos de produtividade”, comemora.

EDUCAÇÃO CONTINUADA
Frente a todo o potencial que as soluções de Inteligência Artificial oferecem à Segurança e Saúde do Trabalho, Carla Siqueira destaca a necessidade de educação continuada para os prevencionistas. Requisito que também pode ser conquistado com o uso das tecnologias, que têm facilitado os treinamentos e capacitações. “Quanto mais conscientes sobre o uso de tecnologias em seu cotidiano, entendendo as suas possibilidades de aplicação e o resultado esperado, mais provável será manter os trabalhadores engajados e participativos”, ressalta o diretor de educação e tecnologia da FIESC, Fabrizio Machado Pereira.

Para o médico do Trabalho Cristiano Motta, os profissionais de SST devem, cada vez mais, prepararem-se para a incorporação das novas tecnologias como parte de seus recursos de trabalho. “Desenvolver e incorporar essas competências constitui um diferencial ao qual eles devem estar atentos. Inclusive, eu diria que, muito em breve, isso se tornará requisito”. Uma ‘virada de chave’ importante, na visão do engenheiro de segurança Tarcísio Caddah é que os prevencionistas se coloquem como protagonistas dessa nova era. “Cada um de nós tem a obrigação de mergulhar nesse novo universo, por mais desconhecido e desafiador que ele seja, e compreender que os profissionais da área de IA não são de ‘outro planeta’, mas sim aliados essenciais para fazer essa nova era acontecer”, pondera. No entanto, para gerar uma verdadeira transformação digital, o gerente de soluções digitais e analíticas de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Petrobras, Jorge Thirige Salerno Junior enfatiza que é urgente se elevar o nível das discussões. “A fase de apenas armazenar informações de SMS ficou para trás, os sistemas precisam estar ativos na vida dos profissionais. A onda de criação de painéis deixou os dados visualmente mais claros, mas ainda é pouco. Um sistema precisa decidir quando encontra apoio nos dados, ou se preserva uma acurácia satisfatória no suporte à tomada de decisão”. Para que isso aconteça, ele aponta como necessário um investimento que observe todas as camadas envolvidas em uma solução com IA e fortalecimento da equipe por meio de papéis bem definidos.

Em uma área vista por alguns como muito burocrática, conservadora, e até mesmo ‘engessada’ como a da Segurança e Saúde do Trabalho, a Inteligência Artificial vem para trazer uma mudança de mentalidade, sem perder seu foco principal, o de salvar vidas.

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Em prol da prevenção. Editora Proteção Publicações. Ed. 350, p. 39, fevereiro/2021.

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