Mulheres na SST
No Mês das Mulheres, a Proteção reflete sobre o papel e as contribuições das profissionais à frente da SST
Reportagem de Marla Cardoso
A primeira vez que comecei a escrever reportagens para a Revista Proteção foi em 2006, portanto, há quase 20 anos. Naquela época, as fontes (como chamamos os entrevistados que contribuem com informações para as matérias), eram predominantemente homens. Não porque não havia mulheres na área de Saúde e Segurança do Trabalho, pelo contrário, elas sempre existiram, mas sempre foi mais natural associar a figura de profissionais masculinos à SST. O cenário vem mudando. Hoje, elas não só têm mais autoridade e espaço para falar sobre o tema, como desempenham funções de liderança em grandes empresas, dirigem importantes entidades da área e estão mais presentes na formação de novos profissionais. A presença das mulheres na Saúde e Segurança do Trabalho, em tese, não deveria ser motivo de notícia, mas ainda, infelizmente, a desigualdade de gênero faz com que essas profissionais e as contribuições que elas vêm dando à SST sejam pouco reconhecidas dentro das próprias empresas onde atuam. Também ainda há desigualdades salariais e preconceitos, práticas que a informação pode ajudar a quebrar. É por isso que, nesta edição de março, mês dedicado às mulheres, a Proteção abraça esse tema, que parece clichê, mas ainda é indispensável. Nas próximas páginas, vamos mostrar como a presença feminina vem agregando à área, postos que elas vêm ocupando, mostrar projetos de SST liderados por mulheres, além de conquistas e desafios profissionais.
A luta das mulheres por espaço e reconhecimento no mercado de trabalho é antiga e conhecida desde os primórdios da Revolução Industrial. Em 1917, quando milhares de operárias russas protestaram reivindicando melhores condições de trabalho – fato que originou o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março – já se falava sobre um dos temas que até hoje está na pauta do trabalho feminino: salários mais baixos para as mulheres, se comparado com os profissionais do sexo masculino. Outros países também lideraram mobilizações ao longo dos séculos reivindicando condições de igualdade, movimento que perdura até hoje. E há motivos, uma vez que essa diferença é explícita em números.
De acordo com o 2º Relatório Nacional de Igualdade Salarial dos Ministérios do Trabalho e Emprego e das Mulheres, as profissionais do sexo feminino recebem 20,7% menos do que os homens. Em cargos de direção e gerência, nós ganhamos 27% menos, e, em funções de nível superior, a diferença chega a 31,2%. A disparidade é ainda mais acentuada entre as trabalhadoras negras. O levantamento contém um balanço das informações enviadas via RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) por 50.692 estabelecimentos com 100 ou mais empregados, somando mais de 18 milhões de empregados.
Os dados trazem apenas o recorte de um ponto que costuma pautar as discussões de gênero e trabalho. Há ainda, em muitos casos, dificuldade das mulheres para conquistar reconhecimento e crescer profissionalmente, preconceitos envolvendo a capacidade das profissionais femininas, diversos tipos de assédios, além da dúvida sobre o nível de produtividade da mulher em função dos demais papéis que desempenha. Se já não é simples para as mulheres independente da área profissional, o que dizer dos desafios para aquelas profissionais que se dedicam a áreas mais técnicas, como a Saúde e Segurança do Trabalho? A dificuldade para demonstrarem que tem tanta competência quanto um profissional do sexo masculino é ainda maior.
ESTATÍSTICAS
Essa adversidade, entre outras, talvez justifique a diferença no número de profissionais que ocupam funções ligadas à SST no país (Veja no quadro Diferença gritante). Historicamente, se constituiu a ideia de que profissões ligadas à Saúde e Segurança do Trabalho podem oferecer condições mais adversas e exigirem um cunho técnico mais denso, além de posições de liderança mais firmes, o que estaria distante
MULHERES NA SST do perfil culturalmente atribuído às mulheres.
Essa disparidade nos números foi vista na prática pela empresária, palestrante, consultora em Inteligência Artificial e Novas Tecnologias em EHS e host do podcast Elas na Proteção, Fabiana Raulino, quando, por volta de 2008, começou a lecionar em cursos técnicos de Segurança do Trabalho. “A presença masculina era imensamente maior. As turmas eram predominantemente compostas por homens, refletindo o perfil histórico da SST, um campo tradicionalmente vinculado à engenharia, à indústria pesada e a ambientes que historicamente pertenciam aos homens”, recorda.
Na Engenharia, muito antes disso, na década de 1970, os bancos universitários dos cursos também eram, em sua grande maioria, ocupados por homens. Parte dessa história, a engenheira de Segurança do Trabalho e presidente da Andest (Associação Nacional dos Docentes em Engenharia de Segurança do Trabalho), Elizabeth Spengler Cox de Moura Leite, confirma que a Engenharia era profissão exercida por homens. “Eram poucas as mulheres que tinham como aspiração estudar e depois exercer esta profissão. A presença feminina em canteiros de obra era diminuta, pois as atividades prioritariamente eram exercidas mais em escritórios de engenharia desempenhando funções de planejamento, elaboração de projetos, gestão e auditoria”, lembra.
Na área de Higiene Ocupacional, em entrevista ao podcast Elas na Proteção, a higienista Irene Saad, pesquisadora da Fundacentro e a primeira presidente da ABHO (Associação Brasileira de Higienistas Ocupacionais), recordou um episódio que viveu no trabalho e que confirma a estranheza que causava encontrar mulheres na SST no passado. “No começo da minha carreira trabalhava em um prédio onde havia a sala da chefia, outra para a secretária e um espaço onde ficavam os profissionais da área técnica. Sempre que entrava uma pessoa nova na instituição, ela era apresentada para todos. Uma vez, entrou um novo colega, que era engenheiro e, ao ser apresentado para mim afirmou: ‘você é a secretária, né? Eu respondi, não, sou engenheira. Ele olhou para outra colega, que também era da engenharia, e disse: mas então você é a secretária?’ Isso é para termos uma noção de como a mulher era vista naquela época. Não se tinha ideia que as mulheres poderiam ocupar espaços na segurança”, reflete. Outra história inusitada foi recordada pela engenheira de Riscos e Segurança de Processos na Vale, membro do Comitê de Segurança de Processos do IBRAM e líder do grupo de elaboração das Diretrizes para Gerenciamento de Segurança de Processos na Mineração do Brasil, Raquel Redivo Pinto, do início da carreira. “Eu estava dando suporte para a realização de um serviço crítico na área e o líder da equipe me perguntou: ‘Mas o quê levou uma moça tão bonita a escolher a Engenharia, uma carreira tão difícil?’ Eu, de pronto, respondi: ‘O mesmo motivo das feias’. Uma pergunta pobre de espírito recebeu uma resposta espirituosa”, lembrou.
Se partirmos para a área de Medicina Ocupacional, o cenário não era diferente. Há 50 anos atuando na SST, a médica do Trabalho, sanitarista, Auditora Fiscal do Trabalho aposentada, membro da Câmara Técnica do Cremesp e da diretoria da APMT (Associação Paulista de Medicina do Trabalho), Edenilza Mendes, afirma ser uma das primeiras médicas da área no país. “Na minha turma, em São Paulo, eu era a única mulher. E nas reuniões das quais participava, não me lembro de outras médicas do Trabalho. O cenário predominante era de homens”, afirma. Nem naquela época ou mesmo durante a sua carreira, Edenilza acredita que o fato de ser mulher trouxe problemas profissionais. “Posso dizer que era respeitada. Prevalecia o conhecimento, a dedicação e o interesse de promover melhorias nas condições e nos ambientes de trabalho”, garante.
PRECONCEITO
Porém, o relato vivenciado pela médica do Trabalho, não predomina entre todas as mulheres profissionais da área. Recentemente, em um congresso, Fabiana conta que viveu uma situação que ilustra bem o cenário que questiona a capacidade das mulheres no trabalho. “Eu compus uma mesa com dois profissionais de SST, ambos significativamente mais velhos do que eu. Fui a primeira a me apresentar e fiz questão de destacar minha trajetória: mais de 20 anos de experiência, minhas formações e alguns dos renomados clientes que minha consultoria atende”, lembra. No entanto, logo em seguida, um dos profissionais ressaltou que, quando Fabiana nasceu, ele já tinha livros publicados. “O tom paternalista era evidente e, nos minutos seguintes, ele deu exemplos clássicos de mansplaining, explicando conceitos básicos de SST como se eu não fosse capaz de compreendê-los”, lamenta.
Esse tipo de atitude, para Fabiana, reflete um viés estrutural que, apesar dos avanços na inclusão de mulheres na área, ainda persiste. “O conhecimento técnico de uma mulher é, muitas vezes, colocado à prova de formas que não acontecem com seus colegas homens. Por isso, a presença feminina na SST é uma questão de diversidade e mudança cultural. É fundamental que se crie um ambiente em que a competência de todas as profissionais seja reconhecida sem a necessidade de uma validação extra, sem a condescendência disfarçada de experiência”, sustenta.
Outra mulher que já sentiu, ao longo da carreira, a capacidade profissional colocada à prova pela questão de gênero, foi a engenheira Ambiental e de Segurança do Trabalho e gerente de Segurança e Riscos na Anglo American, Tamiris Vrunski. Desde que passou a exercer cargos de liderança, ela conta que começou a perceber olhares de julgamento em relação à sua capacidade. “Algumas vezes, em reuniões, as perguntas que eram direcionadas para mim, outra pessoa respondia no meu lugar”, exemplifica. A saída foi buscar entender esses mecanismos estruturais para, inclusive, ajudar outras mulheres que estavam passando pela mesma situação.
INTIMIDAÇÃO
Trabalhando há 10 anos como técnica de Segurança do Trabalho na construção civil, a gaúcha Rita de Cássia Guimarães da Silva, diz também ter vivenciado preconceitos. Isso porque o segmento onde atua é ainda mais predominantemente masculino. “Em uma oportunidade, durante um DDS (Diálogo Diário de Segurança) acabei discutindo com um mestre de obras porque eu estava orientando os trabalhadores a não utilizarem ferramentas elétricas na chuva e ele dizia que naquela obra podia. Assim como este, tive outros episódios com profissionais que não admitiam seguir o comando de mulheres na construção civil”, afirma.
Também técnica de Segurança do Trabalho Graziele Silva traz outro relato não incomum nas relações de trabalho entre homens e mulheres: a intimidação. O caso aconteceu quando trabalhava como TST em uma obra e ela questionou, por e-mail, o engenheiro do canteiro sobre o motivo de um procedimento operacional padrão de segurança na construção estar sendo realizado de forma diferente das demais obras da empresa. “Na mesma hora recebi uma ligação dele perguntando por que eu havia feito aquele questionamento. Ele ficou brabo e me intimidou, mas mantive a minha
posição”, recorda. Por querer manter as boas práticas de segurança no canteiro, Graziele também se sentia pressionada. “Por vezes eu não liberava atividades por entender que não eram seguras, mas sentia uma pressão pela produtividade do trabalho. Queriam que a obra se mantivesse a qualquer custo”, revela. Por não abrir mão do que considerava uma postura ética e responsável com a SST, a técnica acredita ter sido punida. “Cerca de um mês depois do episódio do e-mail com o engenheiro, fui deslocada para outra obra sem justificativa”. Histórias lamentáveis como essas, reveladas por mulheres que contribuem com o desenvolvimento da Saúde e Segurança do Trabalho no país, infelizmente, ainda são muito comuns. Fruto, na opinião da professora universitária, consultora em Ergonomia e coordenadora do COBET (Congresso Brasileiro de Ergonomia Aplicada à Segurança e Medicina do Trabalho e Congresso de Ergonomia do Mercosul), Sylvia Volpi, de uma cultura de desvalorização das mulheres. “Constantemente somos obrigadas a provar nossa capacidade profissional, o que além de desnecessário é extenuante. Utilizemos isto como motivação para sermos cada vez melhores até que um dia isto não mais exista”, instiga.
Jornada desafiadora
Rede de apoio é fundamental para superar adversidades na SST
Na teoria da comunicação assertiva – que propõe a expressão de pensamentos e sentimentos de forma clara, respeitosa e objetiva – há uma máxima que se aplica às discussões dessa reportagem sobre os desafios das mulheres no mundo do trabalho: o óbvio precisa ser dito. E o que esse princípio da comunicação tem a ver com as questões laborais de gênero e a Saúde e Segurança do Trabalho?
Neste caso, muito. Isso porque, se historicamente se perpetuou a ideia de que profissões mais técnicas e exatas não eram do campo das mulheres, é preciso que se diga que a contribuição de profissionais na área de SST não está atrelada ao sexo.
Quem provoca essa reflexão tem a voz da experiência. Mais precisamente meio século atuando na área de SST: a médica do Trabalho, sanitarista, Auditora Fiscal do Trabalho aposentada, membro da Câmara Técnica do Cremesp e da diretoria da APMT (Associação Paulista de Medicina do Trabalho), Edenilza Mendes. “A contribuição do profissional está no poder de atuação pelo conhecimento e do comprometimento com o que se deseja fazer”, crava. E por quais motivos, mesmo parecendo óbvio, isso ainda precisa ser dito?
A empresária, palestrante, consultora em Inteligência Artificial e Novas Tecnologias em EHS e host do podcast Elas na Proteção, Fabiana Raulino, tem a resposta. Embora o discurso sobre diversidade tenha avançado, na prática, muitas mulheres ainda enfrentam barreiras invisíveis. “São submetidas a pseudo-auditorias, onde sua competência é testada de forma excessiva, enquanto seus colegas homens recebem confiança automaticamente. Além disso, o preconceito com a maternidade persiste, com a falsa ideia de que mulheres com filhos são menos comprometidas ou disponíveis para cargos de liderança”, sustenta.
A pressão social do tema maternidade e trabalho é real e assombra as mulheres. A engenheira Ambiental e de Segurança do Trabalho e gerente de Segurança e Riscos na Anglo American, Tamiris Vrunski, recorda de quando começou a desejar ser mãe e do receio que sentiu da gestação atrapalhar a sua carreira. Na época, ela almejava um cargo de liderança superior ao que tinha. “Engravidar naquele momento poderia me tirar a oportunidade de participar do processo. Pelo menos era o que eu pensava”, recorda.
Foram reflexões provocadas por um mentor que auxiliaram Tamiris a mudar seu pensamento. “Ele abriu meus olhos e me disse que as oportunidades profissionais sempre iriam aparecer e, se eu estivesse capacitada, não seria a gestação ou o filho que me tirariam essa oportunidade. Pelo contrário, isso me faria uma profissional melhor. Essas palavras dele fizeram mudar minhas crenças limitantes. Eu engravidei e consegui o cargo que estava almejando”, compartilha.
FORTALECIMENTO
Esse caminho encontrado pela profissional para se fortalecer diante das incertezas, aliás, é o recomendado para que as mulheres possam superar esses e os desafios que se impõem à sua presença na SST. “O caminho passa pela criação de redes de apoio e mentorias que incentivem o crescimento profissional feminino, pela implementação de políticas empresariais que garantam equidade de oportunidades e pela mudança na cultura organizacional para que a competência seja o principal critério de avaliação, independentemente do gênero. As mulheres na SST não precisam de condescendência, e sim de espaço para atuar e liderar com base em suas qualificações e experiência”, opina Fabiana.
A consultora também acredita que redes de apoio e iniciativas de mentorias femininas são capazes de impulsionar uma mudança estrutural na área, criando um ambiente mais inclusivo e igualitário. Uma dessas iniciativas, apresentada no podcast Elas na Proteção, é liderada por Karen Volpato, profissional com mais de 20 anos de experiência como executiva de multinacionais nas áreas de Segurança, Saúde e Meio Ambiente (EHS). Ela é responsável por comandar o Instituto Agente Educa, uma organização dedicada ao desenvolvimento de empresas e profissionais com foco em alta performance na área.
Uma das frentes de trabalho do Instituto é o Movimento Mulheres EHS. Com viés motivacional, o movimento promove uma rede de apoio entre mulheres, emergindo o potencial individual de cada uma delas, humanizando as relações e contribuindo para que elas superem os desafios encontrados em sua vida e nos campos de atuação. A primeira imersão de 2025 acontece em março, em Campinas/SP, chegando à quarta edição, e oferecerá palestras, dinâmicas e oportunidades de networking, permitindo que as participantes sejam integradas a uma comunidade de apoio contínuo.
TRANSIÇÃO
Uma das profissionais de SST que conheceu de perto o poder de uma rede de apoio foi a coordenadora da área de Saúde e Segurança de uma unidade agroindustrial do setor de bioenergia, Tatiana Tanaka. Foi através da participação no Mulheres EHS que ela conseguiu suporte para migrar da área de Meio Ambiente para a SST. “Na área de saúde e segurança não temos tantas mulheres atuando, então, queria ter mais inspirações e me encontrar na área como uma líder. Participei da segunda imersão do Mulheres e tinha um anseio de como iria conduzir e superar aquele desafio da transição”, lembra. Tatiana conta que um dos pilares da metodologia desse movimento, a humanização, faz muito sentido para a área de segurança. “A área de SST é muito mais do que normas. Não temos dificuldade em colocar um procedimento em prática ou entender a aplicação de uma lei, mas precisamos aprender mais sobre pessoas, em como engajá-las”, completou Karen.
Um dos atributos essenciais nas relações de humanização, não por acaso, é a empatia, habilidade muito atrelada às mulheres. É por isso que, também características inerentes às profissionais do sexo feminino podem potencializar a atuação das mulheres na SST. Quem chama a atenção para este aspecto é a engenheira de Segurança do Trabalho e presidente da ANDEST (Associação Nacional dos Docentes em Engenharia de Segurança do Trabalho), Elizabeth Spengler Cox de Moura Leite.
“A mulher possui o instinto de proteção, de cuidado, de atenção com o outro, que também são a base da Segurança do Trabalho, que é preservar a integridade física e mental dos trabalhadores. Na Engenharia do Trabalho, a mulher exerce suas funções com um olhar diferenciado quanto à percepção e identificação do risco e busca com mais dedicação e sucesso alternativas para mitigar, minimizar e/ou mesmo eliminar com eficácia os riscos presentes no ambiente ou processo de trabalho”, defende. Talvez, justamente essa qualidade de olhar para o próximo, também tem aproximado mais as mulheres da SST. Hoje, os cursos de formação da área são muito mais heterogêneos.
Para Fabiana, o crescimento significativo do interesse feminino pela SST é impulsionado por diversos fatores. Primeiro, há uma maior conscientização sobre a importância da segurança nos ambientes de trabalho em geral e a própria noção de SST vem se ampliando, o que atrai profissionais de diferentes perfis. Segundo, políticas de inclusão e equidade de gênero têm gerado mais oportunidades para mulheres ingressarem e se destacarem na área por vagas afirmativas. “Mesmo assim, o predomínio masculino persiste, especialmente em cargos de liderança e em setores mais técnicos da SST. Muitas mulheres que entram na área precisam lidar com desafios adicionais, como a quebra de estereótipos e a necessidade de provar constantemente sua competência”, ponderou.
BARREIRAS
A sombra do julgamento e a necessidade de provar a sua competência são desafios diários para as mulheres. A experiência de mais de 20 anos na indústria de energia e hoje a atuação como consultora independente comprovam essa realidade para a engenheira de Segurança do Trabalho, Gilsa Pacheco Monteiro. “As mulheres não têm permissão de expressar vulnerabilidade em ambientes de trabalho predominantemente masculinos. Não é à toa que, quando pergunto às profissionais que estão em posição de liderança em ambientes masculinos como elas se sentem, muitas vezes a resposta é: solidão. Portanto, parece que ainda temos um longo caminho a percorrer”, reflete.
Comparando o cenário de hoje da presença feminina em funções de SST com há quase duas décadas, quando ingressou na carreira, Gilsa diz que há avanços, mas que o desafio das mulheres ainda é o de estar presente e alcançar posições de liderança na área. “Já fiz serviço em uma planta siderúrgica que não tinha um banheiro feminino. Isso tem mudado. Recentemente estive com um grupo de líderes de uma empresa e havia chefes de máquina e comandantes mulheres. Em resumo, a presença feminina em ambientes predominantemente masculinos já é uma realidade. Mas note que, neste exemplo, devia ter umas três a quatro mulheres em posições de liderança, em um universo de quase 90 pessoas”, completa.
Este cenário, para a engenheira de Riscos e Segurança de Processos na Vale, membro do Comitê de Segurança de Processos do IBRAM e líder do grupo de elaboração das Diretrizes para Gerenciamento de Segurança de Processos na Mineração do Brasil, Raquel Redivo Pinto, também passa por mudanças que começam dentro de casa. “Uma parte desse problema se resolve na criação das crianças, criando meninas para o mundo e que se posicionem firmemente diante dos desafios, e meninos que respeitem as mulheres verdadeiramente. É essencial que os dois lados conversem, se respeitem e tenham empatia um pelo outro, compreendendo os desafios de cada parte. Homens e mulheres têm muito o que aprender uns com os outros e a cooperar entre si”, afirma.
PODCAST DA PROTEÇÃO DÁ VOZ ÀS MULHERES
Entendendo o papel da informação na mudança de uma cultura enraizada e a contribuição das mulheres na Saúde e Segurança do Trabalho, em maio do ano passado a Proteção TV lançou o podcast Elas na Proteção. Desde então, todas as quintas-feiras, às 12h, um novo episódio vai ao ar com convidadas que estão à frente de grandes empresas ou instituições desempenhando funções de liderança na área. À frente do projeto está a empresária, palestrante, consultora em Inteligência Artificial e Novas Tecnologias em EHS, Fabiana Raulino que, nesta temporada, tem como host a médica do Trabalho, Fernanda Netto.
De acordo com Fabiana, o Elas na Proteção nasceu com o propósito de dar voz às mulheres que atuam na área de SST. “Em tantos anos de atuação, a revista Proteção sempre deu voz a todas essas mulheres, grandes parceiras da revista, mas decidimos compilar essas potentes profissionais em um projeto que cria um espaço dedicado para trazer à luz suas trajetórias, desafios e conquistas em um setor ainda majoritariamente masculino”, refletiu.
O podcast conta com quadros e aborda temas como inovação, tecnologia aplicada à segurança, ergonomia e a importância de políticas inclusivas no ambiente de trabalho. “Não focamos especificamente em temas feministas, apenas concentramos mulheres falando de suas profissões e contextos. A cada episódio, buscamos ampliar a representatividade e promover discussões que realmente impactem a transformação da área”, explica a host. Até o momento, foram convidadas 14 mulheres na primeira temporada, 21 na segunda temporada e três episódios da terceira temporada já foram gravados. “Criamos uma comunidade com todas as entrevistas e estamos pensando em muitos outros projetos que partem do Elas, como carinhosamente o projeto é chamado”, conclui Fabiana. O projeto teve tanto sucesso que em novembro do ano passado, o 7º Congresso Brasileiro de SST, promovido pela Proteção, em São Paulo, promoveu dois painéis do Elas na Proteção. Para assistir aos programas completos acesse o Proteção TV no YouTube, na playlist Elas na Proteção.
A outra parte, para a especialista, se resolve com um trabalho de base, formando mulheres desde as profissões iniciais na trilha de liderança e investindo em qualificação das profissionais, assim como sempre foi feito pelos homens. “Entendo que as ações afirmativas que promovem mulheres no mundo corporativo tem sua importância pelo exemplo que dão à juventude, mas a longo prazo, isso não trará consistência. Faz parte da vida de qualquer profissional conquistar oportunidades e enfrentar desafios, isso não pode ser muito diferente para homens e mulheres. Acima de tudo, a mulher precisa ser protagonista da sua vida e da sua carreira, assim como os homens fazem. Precisamos aprender com os homens a ter muito mais audácia, a nunca duvidar de nós, da nossa capacidade, a ter coragem de enfrentar novos desafios, mesmo não estando totalmente preparadas para isso. Acredite, ninguém nunca está”, completa Raquel.
Exemplos inspiradores
Ver outras mulheres prosperando na SST colabora para o empoderamento
Ter em quem se espelhar, inspirar, é um importante combustível para que as mulheres invistam na área de Saúde e Segurança do Trabalho. E exemplos não faltam. Eles só precisam ser compartilhados e reconhecidos. Considerando toda a sua carreira na SST, a engenheira Química e de Segurança do Trabalho e gerente de EHS na PPG Industrial do Brasil Tintas e Vernizes, Mayra Bethania Wayss, relembra que sua grande missão na área foi implementar os requisitos corporativos da empresa multinacional onde trabalha nas plantas do Brasil, Argentina e Chile. “Alinhar as expectativas da companhia com as legislações de cada país, documentar os procedimentos e treinar as equipes foi uma experiência incrível”, recorda.
Ao longo de dois anos, ela conta que pôde conhecer melhor os diversos times das operações e utilizar suas características no processo de implantação e desenvolvimento da cultura de segurança. “Um segundo processo de Segurança que me deixa orgulhosa foi a implementação do HOP (Human and Organizational Performance) em uma das nossas operações no Brasil. O HOP ressalta que pequenas ações do dia a dia deixam nossos processos mais seguros. Quebrar a barreira da culpa, ressaltar que erros podem acontecer e que culpar as pessoas não corrige nada é impactante. O ambiente precisa estar preparado e as pessoas envolvidas também. Não é só habilidade técnica, é compreender quais fatores estão influenciando o comportamento das pessoas e preparar o ambiente para isso”, ensina. Também exercendo um papel de liderança na área, a engenheira de Riscos e Segurança de Processos na Vale, Raquel Redivo Pinto, lembra da oportunidade que teve de conduzir o grupo de elaboração do Guia das Diretrizes para Gerenciamento de Segurança de Processos na Mineração do Brasil, lançado pelo IBRAM em maio de 2024. Foram mais de 70 profissionais de empresas filiadas à instituição, especialistas de diversas disciplinas que contribuíram com sua experiência para a criação do sistema de GSPM (Gerenciamento de Segurança de Processos para a Mineração).
O material descreve os 12 elementos do GSPM, além do Guia de Identificação de Indicadores de Segurança de Processos para a Indústria da Mineração, outro importante projeto liderado pela colega de Raquel Juliana Mello. “Aprendi muito durante os dois anos e meio do projeto. Foi um grande desafio, pois eu tinha chegado recentemente da indústria química e ainda estava conhecendo a mineração. Liderar profissionais tão experientes e ter sua confiança foi uma honra e uma grande responsabilidade, mas com persistência e leveza conseguimos produzir um belíssimo guia, de caráter inovador e que realmente faz sentido para as empresas do setor”, detalha, sinalizando que a partir deste trabalho outras portas profissionais foram abertas.
INTERNACIONAL
Ainda na área de Engenharia, a engenheira de Segurança do Trabalho e consultora em Segurança de Processo, Fatores Humanos e Organizacionais, Gilsa Pacheco Monteiro, lembra de dois momentos que foram, ao mesmo tempo, desafiadores e transformadores na sua jornada. Um deles foi a participação na comissão de investigação do acidente no FPSO Cidade de São Mateus. “Este acidente, que completou 10 anos no último dia 11 de fevereiro, provocou nove fatalidades e deixou mais de 20 pessoas feridas. Durante os trabalhos da comissão, tive a oportunidade de ir a bordo dessa instalação, onde houve um vazamento de condensado seguido de uma explosão na casa de bombas. O nível de destruição que encontrei foi algo
que jamais vou esquecer. Enquanto estava lá, imaginava a confusão e o sofrimento daqueles que estavam a bordo quando tudo aconteceu. Ver de perto o potencial catastrófico que um acidente de processo pode ter, muda a forma como percebemos e agimos sobre os riscos”, compartilha. Outro momento que considera marcante em sua trajetória foi o ano em que foi aprovada como pesquisadora visitante na Escola de Sociologia na Universidade Nacional da Austrália. “Meu objetivo era desenvolver parte da minha tese de doutorado junto ao renomado sociólogo e um dos profissionais que mais admiro, o professor Andrew Hopkins. No entanto, essa passagem pela área de humanas me permitiu ir muito além da tese”, relembra. A partir dessa experiência, Gilsa conta que pôde desenvolver uma abordagem sociológica para o entendimento e análise das causas humanas e organizacionais de eventos.
“Passei a usar a lente da sociologia para enxergar o que os meus olhos, treinados na racionalidade do universo da engenharia, não conseguiam ver. Passei a entender que nós, seres humanos decidindo em grupos, estamos sujeitos a uma série de fenômenos sociais que influenciam, mais do que percebemos ou gostaríamos, a forma como enxergamos os riscos, atribuímos significado a eles e agimos sobre esses riscos. Acredito sinceramente que esses múltiplos olhares e perspectivas que diferentes áreas podem trazer são fundamentais para que possamos desenvolver uma segurança que realmente faz sentido nas organizações”, ensina.
Também uma experiência no exterior foi o que mais marcou a trajetória da professora universitária e consultora internacional em Ergonomia, Sylvia Volpi. Ela recorda de uma oportunidade onde foi proferir uma palestra em um Congresso de SST na Argentina e teve uma reunião pessoal com o Ministro do Trabalho e o Ministro da Educação argentinos. “Conversamos sobre Ergonomia e o Ministro da Educação falou de sua preocupação com o peso do material escolar que as crianças precisavam carregar e que causava problemas. A reunião, a princípio informal, se transformou em consultoria e expliquei sobre uma série de atitudes que poderiam minimizar o problema. Para minha alegria, após alguns meses, me informaram que nossa conversa surtiu efeito: o Ministério reproduziu minhas recomendações em todo o sistema escolar do país”, conta.
REFERÊNCIAS
Profissionais da Medicina Ocupacional também trazem exemplos inspiradores. Médica sanitarista e uma das primeiras médicas do Trabalho no país, Edenilza Mendes, lembra da importante atuação que teve como AFT. Um dos trabalhos mais marcantes teve relação com a NR 12 (Segurança no Trabalho em Máquinas e Equipamentos), envolvendo acidentes com cilindros de massas, em 1984. De acordo com ela, na época, em São Paulo, ocorriam, em média, 10 acidentes de mãos e dedos amputados porque as máquinas não tinham sensores. Foi através de um trabalho na antiga DRT que Edenilza chefiava, junto com o Sindicato dos Padeiros e a Fundacentro, que foi desenvolvido um projeto de modificação desses equipamentos e de instalação de um sensor que permitia que a máquina fosse desligada em caso de acidentes. “Antes desse projeto, quando ocorriam os acidentes envolvendo esses cilindros, o trabalhador ficava gritando até que alguém desligasse a energia. Com a exigência de instalação de um sensor nas máquinas, na altura do abdômen do trabalhador, se ao jogar a massa os dedos ficassem presos, o próprio impacto do corpo no sensor já a desligava imediatamente”, detalhou. Com esse trabalho, Edenilza diz que a mutilação na atividade praticamente acabou. “Era difícil de imaginar que naquele ambiente onde era feito o pão ocorria tanto sofrimento pelas más condições de trabalho”, recorda. Médica do Trabalho há 18 anos e especialista em Gestão de Saúde, Promoção de Saúde e Qualidade de Vida, Fernanda Netto iniciou sua carreira trabalhando em um ambulatório dentro de uma empresa com o desejo de atuar com medicina preventiva. Ao longo da jornada, ela garante ter se tornado uma defensora da especialidade. Não só nas empresas onde atua, mas como docente na formação de novos médicos do Trabalho. “O que eu fiz durante muitos anos e ainda faço com muita dedicação é formar médicos do Trabalho, fazer parte da formação desses profissionais. Demonstrar
que a Saúde e Segurança do Trabalho não é só o que as empresas ou o mercado veem como uma burocracia ou legislação a se cumprir. É sobre a saúde de uma população, sobre cuidar de pessoas para que elas não adoeçam”, opina. Fernanda é hoje uma referência para profissionais da área que ajudou a formar. “Muitos médicos que já estão atuando em grandes empresas me procuram para tirar dúvidas e se aconselhar. Isso me motivou a criar um projeto de mentoria para os profissionais da área nessa caminhada”, conclui.
DESAFIOS
Esses e tantos exemplos da atuação das mulheres na Saúde e Segurança do Trabalho são reais. Mas, reforçando, os desafios para que o trabalho das profissionais na área seja reconhecido ainda são muitos. O principal deles, para Fernanda, é permitir que as mulheres sejam ouvidas como uma referência e capacidade técnica na SST, especialmente entre os seus pares. “Trabalhei em uma empresa em que o meu chefe era um médico, homem, e muitas vezes quando eu me posicionava tecnicamente era questionada se aquela solução era realmente a melhor a ser adotada. Ou, então, o que eu dizia precisava ser validado com outro homem. Essa é uma das grandes barreiras. Não precisar sempre ser validada ou questionada”, opina. Quando uma mulher ocupa cargos estratégicos, a barreira é ainda mais complexa. Isso porque, em tese, por estar exercendo um cargo de gestão, seu poder de fala já estaria garantido. Mas não é bem assim. “Acontece muito de mulheres estarem com outras pessoas em uma reunião de trabalho, por exemplo e, quando elas tentam falar, as pessoas falam por cima. Com isso, percebemos que ainda em cargos de liderança, que traz às mulheres uma percepção de reconhecimento, encontramos barreiras para sermos validadas”, finaliza.
Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Mulheres na SST Ed. 399, p. 15, março/2025.