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Epidemiologia ocupacional

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Epidemiologia ocupacional

O conhecimento não depende mais de uma única fonte de informação

Nilza Machado – Advogada e diretora da Inter System Serviços em RH e da DTMSEG – Segurança do Trabalho e Medicina

Como fazer epidemiologia sem CID (Classificação Internacional de Doenças)? “Não é possível”. Essa era a resposta que eu esperava receber quando, durante o evento realizado em São Paulo, em abril de 2026, fiz ao doutor Paulo Rogério Albuquerque de Oliveira, por ocasião do lançamento de seu livro Tipologia Acidentária no Brasil: Os Oito Nexos Técnicos e a Governança dos Riscos Laborais, esta pergunta que me acompanhava há muito tempo.

A resposta não veio na forma de uma explicação pronta. Ela provocou reflexão. Durante o trajeto de volta, e nos dias que se seguiram, percebi que talvez eu estivesse fazendo a pergunta errada. A questão não era saber se é possível fazer epidemiologia sem CID.

A verdadeira pergunta passou a ser: como integrar todas as informações que hoje já estão disponíveis e fazer epidemiologia?

Tratava-se de compreender que o CID continua sendo um dos pilares da epidemiologia. O que muda é a capacidade de conexão a um universo muito maior de informações.

A resposta repetida a cada argumento foi: “A empresa sabe.”

O fato é que a epidemiologia não exige uma base perfeita e o CID não trabalha sozinho.

Mas saber não significa possuir uma base com 100% de preenchimento. Nem todos os atestados médicos chegarão à em-

presa com CID, e a ausência dessa informação em parte dos documentos não impede o início da análise epidemiológica e seus aprendizados para ações de prevenção. É preciso iniciar com o que existe, declarar as limitações da base e melhorar progressivamente sua completude.

O que a empresa precisa é conhecer a completude de sua base, reconhecer suas limitações e utilizar os dados disponíveis com critérios transparentes. O CID permanece fundamental, mas não trabalha sozinho, dialoga com frequência e duração dos afastamentos, recorrência dos agravos, setor, cargo, atividade realizada, CAT (Comunicação de Acidente do Trabalho), benefícios previdenciários, exposições ocupacionais, PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), PCMSO (Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional) e eventos do eSocial.

A epidemiologia sempre trabalhou com amostras, tendências e probabilidades. Ela não exige perfeição absoluta dos dados, mas exige que a qualidade da base utilizada seja conhecida e considerada na interpretação dos resultados. No quadro Índice de Consistência Epidemiológica da Base de Atestados, você confere a metodologia que adotamos para interpretar a qualidade da base disponível.

A resposta repetida pelo doutor Paulo Rogério durante o debate foi: “A empresa sabe”.

Durante alguns dias essa frase permaneceu comigo. Até que, numa manhã, acordei com outra reflexão: “O chefe sabe”.

Ele convive diariamente com o trabalhador, percebe mudanças de comportamento, recebe, muitas vezes, o atestado médico. É ele quem acompanha ausências, retornos ao trabalho, dificuldades e limitações que dificilmente aparecem em um banco de dados.

Quando esse conhecimento encontra um ambiente de confiança e canais adequados para chegar aos profissionais de SST, então podemos dizer que a empresa sabe.

EXPANSÃO

Enquanto empresas ainda discutem como ampliar a qualidade de suas bases epidemiológicas, o Governo Federal continua expandindo a coleta e a integração de informações em diferentes sistemas.

Os códigos da CID são registrados em requerimentos de benefícios previdenciários, CAT (Comunicações de Acidente de Trabalho), atendimentos realizados pelo SUS (Sistema Único de Saúde), UBS (Unidades Básicas de Saúde), Cerest (Centros de Referência em Saúde do Trabalhador), notificações compulsórias, sistemas de vigilância em saúde contribuindo para a vigilância epidemiológica e para o conhecimento do perfil de adoecimento dos trabalhadores.

Em outras palavras, enquanto as empresas aperfeiçoam seus próprios processos de monitoramento, o Governo também constrói, de forma contínua, uma base cada vez mais ampla de informações sobre a saúde do trabalhador.

Estamos vivendo uma nova etapa da epidemiologia ocupacional. Uma etapa em que o conhecimento deixa de depender de uma única fonte

de informação para ser construído pela integração de diferentes sistemas, diferentes olhares e diferentes atores.

Porque a epidemiologia nunca foi apenas sobre doenças. Ela sempre foi sobre compreender padrões para proteger pessoas. E, cada vez mais, será a base para direcionar decisões, prioridades e investimentos em Saúde e Segurança do Trabalho.

FUTURO

Além disso, existe uma fonte de informação frequentemente negligenciada: a própria história relatada pelos trabalhadores. Muitas vezes, a empresa não conhece o CID, mas conhece os acontecimentos que cercam o afastamento. Luto, separações, doenças familiares, dificuldades financeiras e outros eventos de vida frequentemente são compartilhados espontaneamente pelos trabalhadores com colegas e lideranças.

Isso não substitui o diagnóstico médico. Tampouco elimina a importância do CID. Mas amplia a capacidade de observação da organização e permite o desenvolvimento de uma vigilância epidemiológica baseada, não apenas em códigos, mas também em contextos laborais.

O CID continua sendo um dos pilares da epidemiologia. O futuro, porém, será construído pela capacidade de integrar informações, ouvir as pessoas e transformar dados em decisões capazes de proteger a saúde dos trabalhadores.

Vamos em frente!

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Epidemiologia ocupacional Ed. 416, p. 12, agosto/2026.

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