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Desafios do “novo normal”

Pandemia acelerou o trabalho home office cuja carga física e mental é de responsabilidade da empresa

Entrevista à jornalista Daniela Bossle

Atuando com ergonomia há mais de 40 anos, o médico do Trabalho Hudson de Araújo Couto, 69, nascido em Bom Despacho/MG, realiza neste ano um curso num formato que ele não esperava ter que aderir tão rapidamente: o do ensino a distância. Da mesma forma, suas consultorias (as que não foram interrompidas por causa da pandemia) e as aulas de Fisiologia na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, passaram para o formato EaD.

Toda esta mudança no mundo do trabalho, que já vinha se desenhando, ganhou velocidade com a chegada da Covid-19 no Brasil obrigando gestores, profissionais de SST e trabalhadores a adaptarem-se ao que vem sendo chamado de “novo normal”. Hudson, que é também professor coordenador do curso de pós-graduação em Medicina do Trabalho da FCM/MG e doutor em Administração na área de Comportamento Humano nas Organizações, acredita que mesmo após a pandemia, boa parcela dos trabalhadores deve permanecer em home office, o que exige ajustes na gestão da ergonomia utilizando-se das tecnologias de informação para o adequado controle da saúde das pessoas. No início do ano lançou a quarta edição do seu livro Ergonomia 4.0 que traz capítulos diferenciados sobre ergonomia cognitiva e ‘revolução das tecnologias 4.0’ e seus reflexos para o trabalho.

Quais serão as principais demandas ergonômicas no chamado “novo normal” nos ambientes de trabalho? A primeira é a questão do distanciamento. Você encontra diversos lugares onde não tem muito jeito como no ônibus ou no metrô, o negócio é usar máscara; mas nos refeitórios, nos postos de trabalho, nas linhas de produção é preciso ter um olhar diferenciado daqui para frente. Quando o trabalho em escritórios voltar, voltarão os ‘cubículos’, ou seja, o open space vai voltar a ser com as divisórias superiores e laterais que foram tão criticadas. Daqui para a frente é tudo meio de longe, mesmo quando as máscaras forem retiradas. Como o inglês, você nunca toca o inglês, no mínimo um metro de distância de espaço pessoal [risos]… Outra demanda que deve se acentuar é o que chamo de ‘epifania dos TIC-TOC’. Agora as pessoas com Transtorno Obsessivo Compulsivo foram aos céus, quem tem mania de limpeza está se realizando. A gente pode se perguntar qual o limite disso, mas não sabemos ainda porque o inimigo é invisível. Então, a obsessão por limpeza nas empresas deve aumentar e algumas vão pecar por excesso. Mas de qualquer forma há um saldo positivo nisso. Os escritórios modernos, com postos de trabalho de frente um para o outro, tudo num amplo espaço integrado estão vazios. O pessoal de escritório tem que entender que vai trabalhar predominantemente em casa. Claro, as empresas vão reduzir seus custos com transporte e refeições, mas, por outro lado, terão que olhar para a ergonomia no home office. E aí vem o novo desafio do ‘lar nem sempre doce lar’, que envolve uma série de dificuldades e questões como a gestão dos filhos e da casa, a disciplina e tudo aquilo que envolve o trabalho realizado em casa. Outro aspecto que precisaremos aprender a lidar será com o que chamo de ‘tempos da sanfona’. Temos que nos acostumar que durante dois ou três anos as empresas vão abrir e fechar. Chamar gente e depois mandar para a casa. Estou vendo isto aqui em Minas Gerais na indústria automobilística. Os fornecedores ficaram dois meses fechados, agora foram chamados, estão trabalhando na cadeia produtiva de segunda a quinta. Depois vão para casa e esperam para ver se vão precisar vir na segunda-feira. E será assim até que se tenha vacinas. Isto impacta em ansiedade porque embora a pessoa em princípio não tenha prejuízo em seu salário, fica aquela tensão. Afinal, não sabe quando será chamada, até quando a empresa vai aguentar neste sistema e a pessoa começa a se perguntar até quando ela será necessária. Porque não tem jeito, as demissões vão acontecer. Não há como suportar um negócio numa situação como esta. Aí vem o adoecimento mental que será outra demanda ergonômica forte. Veja o pessoal de saúde, que está na linha de frente de tratamento de Covid, sem recursos necessários; são um exemplo clássico. Associada a isto há uma série de outros motivos que contribuem para o aumento da ansiedade: o medo de perder o emprego, medo das perspectivas diante do efeito sanfona, medo do próprio adoecimento que é muito mais crítico para quem está na linha de frente, mas que todo mundo também tem. Outra mudança radical e lamentável atingirá os idosos. Houve um grande esforço da ergonomia no mundo para inclusão do idoso no trabalho. Escrevi muito sobre isso e as empresas começaram a aproveitá-lo melhor porque o danado do idoso, principalmente na faixa dos 55 a 60 ou 65 anos é muito produtivo, gera muito para as empresas, há estatísticas mostrando isso. Mas agora, o que vamos fazer? Posso aceitar o idoso se ele estiver em casa, mas não posso mais aceitar o idoso na fábrica porque ele é grupo de risco. Você imagina o que significará isso para a empresa se o idoso morrer de Covid? A empresa não terá sido cautelosa porque sabia que ele era grupo de risco e optou por tê-lo trabalhando. Vai sofrer processo imenso. Então, a empresa vai demitir ou não vai contratar. A não seleção de idosos será um critério que infelizmente representará uma regressão de décadas, pessoas com mais de 60 anos não têm nenhuma chance de contratação no mercado de trabalho. Outra demanda que deve entrar forte está relacionada ao que chamo de ‘aparelho do diabo’: o ar-condicionado. Temos visto um problema grande nos frigoríficos brasileiros. Aglomeração, cotovelo com cotovelo, sem distanciamento e ainda o ar-condicionado funcionando direto, soprando coronavírus nas pessoas. Os sistemas de ar-condicionado vão ter que ser muito mais vistoriados em termos de manutenção, de limpeza, cuidados importantes para estabelecer ventilação, e proibir a recirculação do ar. São coisas que mudam a realidade da empresa que precisam agora, mais do que nunca, serem projetadas com janelas que possam ser abertas. Ao mesmo tempo, há coisas que não mudaram e vão continuar iguais.

Por exemplo?
Os dead lines, os prazos e os limites continuam os mesmos, tudo a ser feito no mesmo tempo e mesma hora nesse nosso mundo pós-pandemia. A cobrança de prazos, os serviços pesados, o trabalho em ambientes quentes, o trabalho contínuo e repetitivo em linhas de produção. Ou seja, há aquelas questões que a ergonomia tradicional precisa se ocupar que vão continuar iguais. Só que num cenário, por vezes, muito diferente. Com sistemas de controle de processo por celular ligados direto à internet das coisas. É a intensificação das tecnologias da informação e da comunicação, a revolução industrial 4.0, a empresa 4.0. Nunca fiz curso EaD, no entanto, dia 18 de março foi minha última aula presencial. No início de abril recebi orientação do meu coordenador que eu tinha que passar a dar aula por internet em plataforma como Zoom e outras que existem por aí. Olha…tive que me virar, viu! [risos] Aqui na Ergo, temos nosso curso de ergonomia que este ano chegaria à sua 34ª edição. O que fizemos? Meu filho e eu bolamos um curso alternativo de 10 sessões de duas horas cada chamado ‘Ergonomia sem mistérios’ e abrimos 40 vagas. Estamos com 48 alunos e um monte de gente querendo fazer. O que as tecnologias 4.0 nos permitem é impressionante.

Qual o papel do médico do Trabalho diante de todas estas mudanças e as possíveis implicações ergonômicas? A Medicina do Trabalho tem um papel importantíssimo em viabilizar ao máximo a empresa considerando a pandemia. O médico tem que ser referência para questões de saúde no ambiente de trabalho; tem que ser decisivo na autorização ou não do retorno ao trabalho; tem que ser referência técnica para a adoção dos padrões de higiene nas instalações, e espera-se que ele faça a educação dos trabalhadores estimulando o autocuidado que é uma das coisas mais importantes. Eu tenho 69 anos, tenho saído na rua, mas faço distanciamento, vou a supermercado nos horários que não estão cheios… Sua atuação também é decisiva na questão do nexo com o trabalho. Esta é uma questão grave destes tempos: afinal a Covid é por causa do trabalho? Ele também deve dar suporte para a saúde mental e ter flexibilidade com relação aos atestados médicos. Hoje temos protocolos: se a minha esposa tiver suspeita de Covid, o protocolo é que ela fique em observação, o agente de saúde vai acompanhá-la com informações de telemedicina e eu tenho que ficar em casa também e a empresa tem que ter flexibilidade com relação a este absenteísmo, tem que abonar. Há trabalhos belíssimos sobre o acompanhamento da saúde dos trabalhadores em home office que é outra tendência a que o profissional de Medicina do Trabalho deve estar atento. Ele também deve ser ativo no gerenciamento da saúde suplementar e não esquecer de dar atenção às questões antigas.

Como fazer a gestão de funcionários da empresa em home office? Temos que aproveitar uma das grandes coisas que esta pandemia nos trouxe e utilizarmos as tecnologias de comunicação. Fazer reuniões periódicas com os trabalhadores que estão em teletrabalho para poder saber como você está em casa, como está seu sistema de trabalho, se está sentindo alguma dificuldade. A tecnologia de informação permite que o controle das pessoas a distância seja feito desta forma. Existe uma ferramenta chamada Senso de Ergonomia, que você pode utilizar e passar a fazer estatística com os funcionários realizando um controle periódico da saúde física e mental. No caso desta última, pode haver necessidade de um contato presencial e um suporte de psicólogo. Dá para fazer, por exemplo, um check list de seu posto de trabalho, pedir que a pessoa mostre com a sua webcam como está a condição do seu posto, e o profissional saberá orientá-la com a ajuda da tecnologia de informação.

Além do controle via novas tecnologias, o que mais o gestor de SST precisa se preocupar para migração do trabalho para casa? Não pode descuidar do posto de trabalho, tem que se colocar à disposição para emprestar cadeira, por exemplo. A revista Veja esta semana fez um comentário irônico porque a Petrobras foi condenada a fornecer cadeiras para seus profissionais que estão em home office. Como se fosse um exagero. Exagero não, perfeito! Se enquanto empresa estou te colocando em teletrabalho, a responsabilidade do posto de trabalho é da empresa. Sem dúvida nenhuma. Existem também outras formas de controle muito elegantes que podem ser feitas. O sistema da Boeing que, pelo seu celular e mediante sua autorização, eu sei se você está tendo fadiga ou não, se está dormindo o suficiente ou não. São sistemas de inteligência artificial que estão aí para serem utilizados. Os smartphones são maravilhas dos tempos atuais porque você instala alguns aplicativos que permitem saber como você está. Tem outro aplicativo muito interessante que você sinaliza no seu celular e eu fico sabendo como está sua carga mental. É o Nasa TLX. Você faz daí e eu interpreto daqui.

Como a empresa pode se precaver de futuras ações na justiça ligadas a funcionários que passaram a trabalhar em casa em condições precárias e acabaram adoecendo? A questão basicamente é a seguinte: o empregador que colocar seus funcionários em home office terá as mesmas obrigações sobre o acompanhamento da saúde de seus funcionários do que se eles estivessem na empresa. Em 2003 fui chamado em Campinas para uma proposta de análise ergonômica de uma grande empresa que, inclusive, não ganhamos. Naquela época já fazia parte do escopo da proposta a análise do trabalho em casa de 18 pessoas. Se eu propicio bom posto de trabalho, provavelmente você não terá LER DORT. Mas vamos para o adoecimento relacionado à carga de trabalho excessiva. Tenho que manter revisões periódicas nas quais precisamos pesquisar isso, perguntar se existe atualmente no seu trabalho alguma coisa que te cause desconforto, fadiga, dolorimento ou dor. Tenho que ter ferramentas de Medicina do Trabalho para avaliar sua carga mental e ergonômica e tomar providências. Assim como teria de fazer se você estivesse trabalhando na empresa.

O senhor considera que a ergonomia ainda é um mito para as empresas? Como praticá-la sem tantos empecilhos? Se você me perguntar qual o maior facilitador e o mais dificultador da ergonomia eu diria que é a chamada cultura da empresa. Você ouve muitas pessoas dizerem que o maior dificultador é a limitação financeira. Não, não é. Ou que o maior facilitador é ter dinheiro. Não, não é. É a cultura da empresa. Esse negócio de cultura é algo que muitas vezes os profissionais de ergonomia cuidam pouco. Em Minas Gerais existe uma frase muito comum que é “on co tô” [risos]. “Onde que eu estou”? O que eu quero dizer com isso? Que o profissional de ergonomia quando chega numa empresa tem que saber onde ele está. Se ele chega numa empresa e o empresário diz: ‘Nós precisamos trabalhar para que nossos trabalhadores tenham a melhor condição, não adoeçam, não se acidentem. Me ajude nisso’. Ótimo! Você está numa cultura que chamaríamos de abordagem sistêmica de interdependência, ou seja, o resultado da empresa depende do bem–estar das pessoas. Agora vamos para trás… Você chega numa empresa familiar. Este tipo de empresa não vai buscar no mercado gestores formados segundo o melhor saber, vai fazer com que os gestores sejam da família. Se você chega nesta empresa e você acredita que o pessoal está trabalhando em ritmo muito forçado e precisa de pausas para recuperação de fadiga, você primeiro terá que convencer a família, o dono da empresa. Agora vamos para uma empresa de engenheiros. É bom de trabalhar porque engenheiro entende de números, de metas. Se você falar de números vão te atender. Agora se você falar que tal situação pode causar lesão, vão te questionar: “baseado em qual porcentagem, em que número?” Agora vamos para uma empresa taylorista, que seleciona a pessoa que vai dar o melhor resultado, que terá pagamento diferenciado dependendo da produtividade, quanto mais o indivíduo produz, mais ele ganha. É difícil fazer ergonomia numa empresa desta porque o pessoal acredita que o ser humano é uma máquina movida a dinheiro e se eu der o incentivo, a pessoa, muitas vezes, vai até o limite da fadiga. Agora vamos para uma empresa fordista, com linhas de montagem em que o trabalhador repete a mesma operação o tempo todo, mil, duas mil, três mil vezes. Se você tiver taylorismo com fordismo é mais complicado ainda, mas não é tão complicado quanto taylorismo com crematística, em que o ser humano é uma máquina movida a dinheiro, quanto mais ele fizer, mais vai ganhar de salário. São os bancos. Aí você tem que encontrar uma maneira de quebrar isso: “senhor banco, você pode ter metas, mas ter metas que levem as pessoas a adoecerem mentalmente é complicado”. Então, as dificuldades de se trabalhar ergonomia dependem muito da cultura da empresa e, por isso, o profissional de ergonomia tem que sempre se perguntar, ao chegar numa empresa, onde ele está. Se for familiar, ele tem que cultivar amizade com os donos para poder ser aceito; se for burocrática ele tem que respeitar a hierarquia; se for taylorista ele tem que falar a linguagem da produtividade; numa empresa de engenheiros é fácil, basta mostrar indicadores e assim por diante.

Como deverá ser feita a ergonomia a partir da implementação do PGR previsto na nova NR 1? Olha, as propostas que a boa ergonomia prevê estão super à frente do que é exigido no PGR. Quando veio a nova NR 1, vi que nós já fazíamos há muito tempo o que o Programa de Gerenciamento de Riscos prevê. O PGR só tem duas ferramentas: o mapa de risco e o plano de ação. É um quadro em que devem ser identificados os setores da empresa e as situações de riscos de acidentes por fator ergonômico. A partir deste panorama você define as metas a fim de resolver as más condições ergonômicas, estima quanto tempo vai levar para fazer isto e quais serão os planos de ação. É franciscano em termos de simplicidade, mas não é fácil. Tem que ter informações em primeiro lugar do serviço médico sobre onde é que está dando problema. Em segundo lugar, buscar informações com os técnicos de segurança sobre quais situações eles veem como muito problemáticas. E em terceiro, realizar treinamento de ergonomia com os trabalhadores levantando com eles quais as situações que percebem como problemáticas. Aí o profissional de ergonomia depura tudo e faz o quadro, que é simples, mas para construí-lo não é tão fácil. Em qualquer tamanho de empresa você faz em três meses e numa empresa imensa faz em cinco meses. Aí você leva para a gerência para aprovação.

E depois de aprovado?

Daí em diante vamos colocar energia nesse negócio e decidir o que vamos fazer neste ano, o que vamos fazer no ano que vem. Não vá além disso. Tem coisas que você precisa resolver que envolve projeto e se eu falar que vou resolver algo que envolve projeto este ano, é mentira. No primeiro ano, vou me ocupar de melhorias de baixo investimento. Ano que vem, vou desenvolver o projeto e talvez em outubro, eu vá colocar no budget da empresa aquilo que será resolvido em 2022. Então, muitos problemas ergonômicos só vou conseguir resolver em três ou quatro anos. E o Ministério Público tem que entender… Este ano posso realizar ações para mitigar determinado risco e impedir novos adoecimentos, mas resolver a questão, leva mais tempo. O plano de ação é isso: o panorama ergonômico com os problemas e ações bem descritos, com uma confiabilidade de pelo menos 90% e a definição da gerência sobre como isto vai ser feito – a curto, médio e longo prazo – e tudo acompanhado de indicadores de processos e de resultados. A NR 1 tornou tudo simples, não tem mais um modelo para ser copiado.

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital)Desafios do “novo normal”. Editora Proteção Publicações. Ed. 344, p. 10, agosto/2020.

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