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Presidente da Abergo fala sobre desafios de sua gestão e valorização do ergonomista nas empresas

Entrevista à jornalista Daniela Bossle

Próxima de completar seu primeiro ano à frente da Abergo (Associação Brasileira de Ergonomia) na gestão 2021-2023, a fisioterapeuta do Trabalho paranaense e mestre em ergonomia, Lucy Mara Baú, está há mais 30 anos envolvida com o tema ergonomia e trabalho. Desde quando atuava como fisioterapeuta em atividades de reabilitação e na área acadêmica, ainda nos anos 80, questionava-se sobre as causas das doenças dos trabalhadores, em especial as musculoesqueléticas.

Quando começou com consultoria e assessoria em ergonomia em 1996, passou a atender muitas empresas públicas e privadas, nacionais e multinacionais, e foi então que decidiu ampliar sua capacitação cursando o mestrado em Engenharia/Ergonomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Na docência coordenou entre 2001 e 2009, a primeira especialização em Fisioterapia do Trabalho no país, reconhecida pelo Conselho Federal de Fisioterapia e, no final daquele período, participou ativamente da construção da especialidade na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações) representando a Associação Brasileira de Fisioterapia do Trabalho, a Abrafit, da qual foi uma das fundadoras.

Em paralelo às atividades que exerce como presidente da Abergo Lucy Mara coordena o Departamento de Ergonomia e SST da Faculdade Inspirar, os cursos de Pós Lato Sensu em Higiene Ocupacional e o MBA/Pós em Ergonomia.

Como foi seu primeiro ano à frente da Associação Brasileira de Ergonomia? Já há avanços conquistados pela entidade nesta gestão? Como eu já participava de gestões anteriores, tinha contato e contribuição da equipe, o que facilitou o acesso aos dados, a integração e a continuidade aos trabalhos que já estavam em andamento. Ao iniciarmos a nossa gestão, apresentamos o planejamento estratégico com plano de ação, prazos e responsabilidades, e estamos conseguindo cumprir nossas metas. Entre elas: atualização do nosso site possibilitando maior integração e consequentemente um aumento no número de associados; simplificação de documentação e trâmites com maior uso de tecnologia; informatização da contabilidade e aspectos administrativos e financeiros da entidade; realização de mais eventos trazendo especialistas e atualizações, ofertando inscrições gratuitas aos associados e convênios com outras entidades e empresas para descontos especiais; aumento das atividades nos Grupos Técnicos que têm sido muito ativos (veja no box Grupos Técnicos da Abergo); envolvimento maior com as entidades de classe e associativas de SST para interação, troca de experiências e apoio mútuo; encaminhamento ao Ministério do Trabalho/CBO – Classificação Brasileira de Ocupações da solicitação para descrição do especialista Ergonomista; realização de convênios com instituições de ensino para que a Abergo realize pesquisas com bolsas de estudo, focalizando no ensino da ergonomia no Brasil. Só para citar um exemplo, neste ano, a Abergo conseguiu quatro bolsas de pesquisa com a PUC Paraná que já estão em andamento.

Quais os maiores desafios de sua gestão?
Acredito que o primeiro deles seja dar maior retorno aos nossos associados que possibilitam a manutenção de nossas atividades e nos prestigiam com suas experiências, confiança e credibilidade. Em seguida, temos o desafio de aproximar a Abergo das entidades e órgão governamentais para a contribuição de uma ergonomia forte, ética e eficiente junto aos trabalhadores e empresas. Temos excelentes profissionais, quer na pesquisa, no ensino ou na prática da ergonomia, dispostos a colaborar com o seu conhecimento e experiência para a sociedade. Ademais, o foco desta gestão, principalmente, é conseguir a descrição do especialista ‘ergonomista’ junto à CBO. Assim como no caso do reconhecimento do profissional psicanalista cujo CBO é 2515, onde o critério é ter nível superior (não necessariamente ser psicólogo ou psiquiatra) e ter reconhecimento por classificação internacional de entidade da psicanálise, que exige cinco anos de experiência. Da mesma forma, com a inclusão da descrição na CBO, os ergonomistas poderão ter contratos CLT corretamente. Hoje eles são contratados como analistas de saúde ou analistas de ergonomia, ambos não têm CBO, o que muitas vezes traz conflitos éticos e/ou legais na contratação devido à sua graduação de base.

Recentemente houve a publicação da nova NR 17 (Ergonomia) a que as empresas terão de se adaptar. Qual sua avaliação sobre o novo texto? De uma maneira geral, a nova NR 17 está melhor, mais detalhada e acrescentando questões como fatores cognitivos do trabalho; separando atividades de esforço e manuseio de cargas de materiais, excluindo o manuseio de pessoas, como por exemplo nas atividades em saúde, dentre outros aspectos. Outro ponto importante foi deixar descrito que o profissional ergonomista é quem define a metodologia ou ferramenta de investigação na avaliação e análise ergonômica, não engessando com indicações ‘a’ ou ‘b’. Porém, houve perdas: a organização de pausas não está especificada claramente. Esperamos que a descrição do novo Manual de Ergonomia detalhe melhor estes dados, dando subsídios para a compreensão técnico-científica da avaliação e análise correta e eficiente, eliminando a subjetividade no processo. Assim como na NR 17 anterior, continuam existindo abordagens subjetivas que deixam dúvidas aos profissionais. Como exemplo nos itens que tratam sobre as pausas; sobre a definição do leiaute/distanciamento do posto de trabalho em que foram inseridos fatores cognitivos e não psicossociais; e também na definição de onde serão anexados os resultados das Análises Ergonômicas do Trabalho, pois apenas estão definidas as avaliações preliminares.

Em sua vivência como docente nas especializações em ergonomia, como a senhora avalia a qualidade dos profissionais ergonomistas no Brasil? Como melhorar a capacita-ção nesta área? A demanda por ergonomistas tem crescido muito no Brasil com as exigências legais, as fiscalizações, autuações e o aumento de passivos nas empresas por doenças do trabalho decorrentes de fatores ergonômicos. Isso levou ao aumento da oferta por cursos de especialização em ergonomia. Como em outras áreas, temos cursos de ótima qualidade e outros que apenas buscam cumprir as exigências mínimas do MEC de 360 horas ou mesmo ofertando mais, porém de baixa qualidade. A Abergo, preocupada com uma formação de qualidade, com garantia de atualização constante, criou em 2003 o Sistema de Certificação do Ergonomista Brasileiro em que por 10 anos aceitou, para realizar a prova do Energo (Fórum de Certificação), quem tivesse realizado qualquer pós em ergonomia. Porém, desde 2014, a entidade só aceita candidatos para realização da prova de qualificação, que tenham realizado uma especialização em curso de instituição de ensino acreditada pela Abergo, com critérios mínimos estabelecidos relativos à carga horária, conteúdos, qualificação de professores, estrutura, estágio etc. Assim garantimos minimamente uma qualificação que possa capacitar melhor estes profissionais para o mercado de trabalho.

GRUPOS TÉCNICOS DA ABERGO
– Ergonomia Forense
– Prevenção de DORT
– Macroergonomia
– Psicodinâmica do Trabalho
– Ergonomia em Ambiente Construído e Acessibilidade
– Ensino e Formação em Ergonomia
– Jovens Pesquisas em Ergonomia
– Práticas em Ergonomia

Neste ano, a IEA (International Ergonomics Association) reconheceu o sistema de certificação da Abergo. O que isto significa para a entidade? A Associação Internacional de Ergonomia (IEA), com seu escritório sede em Genebra, na Suíça, após avaliação de seu corpo de peritos, aprovou o reconhecimento do sistema de certificação de pessoas da Abergo como compatível com o seu sistema internacional de acreditação. Agora o SisCEB (Sistema de Certificação do Ergonomista Brasileiro) é o quinto Certification Program Endorsed by IEA existente no mundo. Somos o primeiro sistema latino-americano a ter este endosso internacional. Os cinco Sistemas de Acreditação de Ergonomistas endossados pela IEA são: BCPE (Conselho de Certificação em Ergonomia Profissional) dos Estados Unidos; CREE (Centro de Registro de Ergonomistas) da Comunidade Europeia; Japanese Ergonomics Society; New Zealand Ergonomics Society e a Abergo (Associação Brasileira de Ergonomia).

Qual sua avaliação sobre a qualidade da gestão de ergonomia nas empresas? Em que nível estamos? A gestão em ergonomia nas empresas evoluiu muito nos últimos anos. Anteriormente, as empresas contratavam ergonomistas apenas para trabalhar mais focado em SST, demandadas por fiscalizações e autuações. Com o resultado positivo da atuação do ergonomista, viram que agregamos muito às melhorias do processo produtivo, aos projetos e na organização do trabalho, além da promoção e da prevenção em Saúde e Segurança do Trabalho. Éramos vistos apenas como custo para atender legislação, mas com o decorrer dos resultados, as empresas estão vendo que a ergonomia é um investimento, trazendo retorno financeiro, mas, principalmente, reduzindo os passivos, melhorando os processos de trabalho e visivelmente tendo trabalhadores saudáveis, o que reflete positivamente em seus desempenhos aumentando a sua produtividade. Vejo um futuro com profissionais ergonomistas contratados para fazer gestão na maioria das empresas. Sem importar seu tamanho ou atividade, mas sim devido à uma preocupação com os indicadores, evidenciando o custo-benefício deste profissional na equipe de gestão do trabalho.

Que dicas a senhora daria ao profissional que necessita implantar a gestão da ergonomia em sua empresa ou como consultor? Por onde começar? Para implantar a ergonomia como gestão na empresa, a primeira ação é o levantamento dos indicadores. São eles: saúde, segurança do trabalho, RH, jurídico – passivos e fiscalização -, manutenção corretiva de equipamentos – a ergonomia pode contribuir nestas ‘falhas’ -, índices de retrabalho ou perdas, absenteísmo, turnover, horas–extras etc. A partir destes dados deve-se iniciar o levantamento ergonômico norteado pelos indicadores de risco e de gravidade, incluindo a participação dos trabalhadores na avaliação preliminar ou análise ergonômica e a sua capacitação sobre o que é a ergonomia e como ela pode contribuir com melhorias no trabalho e na prevenção. Após o levantamento, construir com os envolvidos, um plano de ação com validação para cada item a ser implementado nas melhorias. Periodicamente, após revisar as melhorias e registrar no plano de ação, inserir suas atualizações no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) que será obrigatório a partir de janeiro de 2022.

Os riscos psicossociais, inicialmente previstos para entrar na NR 17, acabaram não entrando. Qual a importância desta abordagem no âmbito das empresas? Sabemos que os fatores cognitivos, associados aos fatores psicossociais, definem a carga mental do trabalho. Portanto, é de grande importância a influência destes fatores sobre o processo de adoecimento e comprometimento da qualidade de vida e desempenho dos trabalhadores. Não apenas as questões de carga física ou organizacional, para que um trabalho possa ser saudável e produtivo. Porém, este tema não foi incluído na NR 17 no período de debate sobre a sua atualização devido a divergências e falta de consenso entre as partes. Deixaram para ser discutido separadamente no grupo tripartite criado neste ano que está analisando os fatores psicossociais do trabalho, para que seja definida uma nova norma regulamentadora ou um anexo sobre este assunto.

O 21º Congresso da Abergo, que acontece neste mês no formato virtual, tem como temática principal ‘Ergonomia e Fatores Humanos em um Mundo Conectado’. Fale sobre a escolha deste tema que norteia o congresso deste ano. Com a indústria 4.0, cada vez mais, a dependência da tecnologia de informação e a automação se fazem presentes na nossa realidade de trabalho. A Covid 19 acelerou este processo. Com isolamentos obrigatórios e distanciamento social, o mundo virtual passou a ser grande parte de nossa rotina, principalmente nestes quase dois últimos anos. A reorganização do trabalho decorrente do seu processo natural de evolução, associada ao momento em que estamos vivendo, nos obrigou a rever vários processos de trabalho e sabemos: a vida não será a mesma depois disto. Preocupados com a condução desta necessária reorganização do trabalho, a Abergo definiu esta temática para que especialistas e cientistas tragam resultados e debates sobre a melhor forma de conduzir esta transição, que foi acelerada pela Covid. Caso contrário, teremos maior adoecimento, baixo desempenho e aumento de passivos trabalhistas, principalmente por ‘CID F’ que são os transtornos mentais.

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Demanda alta. Editora Proteção Publicações. Ed. 359, p. 10, novembro/2021.

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