Notícias Relacionadas

Informações importantes ao setor de Segurança do Trabalho e Saúde Ocupacional.

Ludopatia e a empresa

Ludopatia no trabalho

Jorge Chahoud – Engenheiro de Segurança do Trabalho e Ambiental, Pós-Graduado em Engenharia Biomédica/Clínica, Pós-Graduado em Ergonomia e Especialista em Higiene Ocupacional.
jorge@laboral.com.br

Quando o transtorno do jogo, ou ludopatia, é identificado por profissional de saúde ou comunicado pelo trabalhador, a resposta da organização pode favorecer o tratamento. À empresa cabe acolher, proteger o sigilo, facilitar o cuidado e preservar a dignidade, sem investigar a vida privada.

Em 2025, o INSS registrou 679 afastamentos associados à ludopatia, ante 425 em 2024, alta de 59,8%, segundo dados divulgados pela Folha de S.Paulo. O dado evidencia repercussões no trabalho.

O que é ludopatia ou transtorno do jogo?

O transtorno do jogo envolve perda de controle, prioridade crescente das apostas e continuidade apesar das consequências. Ludopatia é a denominação corrente. O diagnóstico deve ser feito por profissional de saúde habilitado.

A organização pode conhecê-lo por comunicação do trabalhador, orientação assistencial ou necessidade funcional ligada ao tratamento.

As apostas pelo celular deixaram o jogo disponível a qualquer hora. Segundo Hermano Tavares, coordenador do Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (PRO-AMJO), nos anos 1990 a idade média dos pacientes ficava entre 45 e 47 anos. Hoje, está próxima dos 30, com participação crescente das apostas on-line.

Idade, cargo, renda ou desempenho não confirmam nem afastam o transtorno.

Faltas, desatenção, saídas do posto, crises de pânico e pedidos de adiantamento surgem em relatos empresariais. Isoladamente, não comprovam ludopatia nem justificam rótulos. Se a condição foi comunicada ou houve pedido de ajuda, auxiliam a dimensionar o suporte conforme as repercussões funcionais.

Como a empresa deve agir diante da ludopatia?

O papel da organização não é diagnosticar nem investigar a vida particular do trabalhador. Sua contribuição está em criar condições para que ele possa buscar ajuda, preservar sua dignidade e manter, quando possível, sua atividade profissional.

Acolher sem moralizar

O primeiro contato exige privacidade. Em vez de calcular perdas ou questionar escolhas, a liderança pode perguntar: “Como podemos ajudar no acesso ao cuidado?”

A conversa deve reconhecer o sofrimento, apresentar apoios e incluir o trabalhador nas decisões. Um contato único evita repetir a história e restringe a circulação de informações.

Tavares resume os sinais em três Cs:

  • Controle: quando se ultrapassa o tempo ou o valor planejado;
  • Confronto com emoções: quando se aposta para lidar com o que se sente;
  • Caça ao resultado: quando se tenta recuperar perdas.

A referência orienta a escuta, não o diagnóstico.

Apostas formam hábito; sermões e apelos à força de vontade são insuficientes. A responsabilidade envolve apostador, Estado e empresas do setor, sobretudo quando plataformas criam ilusão de controle ou apresentam o jogo como renda.

A empregadora não substitui esses atores, mas pode evitar culpabilização e facilitar o cuidado.

Proporcionar acesso real ao tratamento

A empresa pode oferecer psicologia, assistência, serviço social, rede credenciada ou orientação sobre o plano de saúde.

Caso não haja esse suporte, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e, quando necessário, acompanhamento especializado nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

No Meu SUS Digital, também está disponível um serviço específico de saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. O autoteste é anônimo, não substitui o diagnóstico e, conforme o resultado, pode direcionar o usuário para orientações ou teleatendimento profissional.

O Ministério da Saúde disponibiliza ainda informações específicas sobre avaliação e busca de ajuda para problemas relacionados ao jogo.

Autoexclusão e redes de apoio

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão foi criada para permitir que o próprio usuário solicitasse, de uma só vez, o bloqueio de contas em plataformas autorizadas e impedisse novos cadastros vinculados ao CPF.

Nota de atualização: atualmente, o Ministério da Fazenda informa que a plataforma está indisponível em razão das mudanças ocorridas após a proibição das apostas de quota fixa no país.

A empresa pode informar sobre recursos públicos e formas de busca de ajuda, sem pedir senhas nem agir em nome do trabalhador.

Também pode indicar o PRO-AMJO, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, que oferece atendimento especializado a pessoas com transtorno do jogo e seus familiares.

Outra possibilidade são os Jogadores Anônimos, que oferecem reuniões presenciais e virtuais de apoio a pessoas com problemas relacionados ao jogo.

Tratamento da ludopatia e papel da empresa

O tratamento pode reunir psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental e grupos de apoio. Medicamentos podem tratar condições associadas, após avaliação profissional.

A empresa não escolhe a terapia: facilita o acesso, assegura tempo e reduz obstáculos.

Condições para continuar o cuidado

O diagnóstico não implica incapacidade automática. Afastamento ou restrição dependem da avaliação individual, das atividades e das repercussões funcionais.

Depressão, ansiedade, uso problemático de substâncias e outros transtornos podem agravar o quadro. O suporte deve ser integral e seguir a orientação assistencial.

Ludopatia, riscos psicossociais e GRO/PGR

A ludopatia é uma condição clínica individual. No Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a organização avalia fatores psicossociais relacionados às condições de trabalho, e não sintomas ou diagnósticos pessoais.

O tema ganhou ainda mais importância com as alterações da NR-1 e do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, que passaram a tratar expressamente dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho.

A Ambiental já abordou esse assunto no artigo Riscos psicossociais, com informações sobre a inclusão desses fatores no gerenciamento de riscos ocupacionais.

Com repercussão funcional, o médico responsável pelo PCMSO avalia a aptidão e orienta encaminhamentos, preservando o sigilo.

A Ambiental atua na elaboração e acompanhamento de PGR/GRO e outras soluções em Segurança e Saúde no Trabalho, além de serviços relacionados ao PCMSO e Medicina do Trabalho.

Medidas que podem ajudar o trabalhador

Ajustar horários e tarefas

Consultas e grupos terapêuticos exigem regularidade. A empresa pode combinar flexibilidade de horário, compensação, trabalho remoto compatível ou outra solução temporária.

Se houver indicação, pode ajustar jornada, carga ou tarefas.

Em atividades com numerário, direção, máquinas ou alta atenção, a realocação provisória pode proteger o trabalhador e terceiros. A medida precisa de fundamento, prazo e revisão, sem caráter punitivo.

Orientar as finanças sem invadir a vida privada

A dívida mantém o sofrimento e pode alimentar apostas. A empresa pode oferecer orientação financeira, apoio à renegociação e serviço social.

Pedidos repetidos de adiantamento, isoladamente, não comprovam o transtorno. Diante de pedido de ajuda ou condição comunicada, podem abrir espaço para orientação reservada.

Empréstimos não são solução automática; o apoio não autoriza acesso a extratos, contas, senhas ou dados clínicos.

Proteger e responder à crise

Familiares só devem ser envolvidos com autorização, salvo emergência.

Diante de intenção de se ferir, risco de morte ou impossibilidade de garantir a própria segurança, a pessoa não deve ficar sozinha.

A empresa deve acionar o fluxo de emergência e encaminhá-la ao atendimento imediato, como SAMU pelo telefone 192, UPA ou serviço hospitalar de emergência. O próprio Ministério da Saúde inclui esses serviços na rede de atendimento a situações de crise relacionadas à saúde mental.

Acompanhar sem vigiar

A recuperação não termina no encaminhamento. Um ponto de contato pode realizar conversas breves, verificar se as medidas ainda ajudam e ajustá-las.

O acompanhamento observa o trabalho, sem monitorar apostas, finanças ou vida pessoal.

Recaídas não devem ser interpretadas como falta de caráter; podem exigir revisão do cuidado.

Sigilo, dignidade e limites da atuação empresarial

O diagnóstico permanece restrito; a gestão recebe apenas orientações funcionais.

Exposição, sermões, exigência de extratos, contato familiar sem consentimento e punição automática afastam o trabalhador do cuidado.

Embora o artigo 482, alínea “l”, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) inclua a prática constante de jogos de azar entre as hipóteses de justa causa, o transtorno diagnosticado exige distinguir doença, conduta e repercussão funcional.

A dispensa baseada apenas no diagnóstico pode ser questionada como discriminatória. Cada caso requer análise ocupacional, probatória e jurídica.

A empresa não trata, mas pode facilitar a recuperação

A empresa não conduz a terapia nem garante o resultado.

Sua contribuição é remover vergonha, medo, barreiras de acesso e incompatibilidade de horários.

Ao acolher, encaminhar, ajustar e acompanhar, ajuda o trabalhador a buscar recuperação sem colocar a dignidade nem o emprego em jogo, favorecendo também a segurança e a continuidade do trabalho.

Conheça a sua realidade, cultive formas de prevenção, veja o que já deu certo e mantenha, criando de tempos em tempos os ajustes necessários.

Para conhecer as soluções da Ambiental relacionadas a Segurança do Trabalho, Saúde Ocupacional, PGR/GRO, PCMSO e prevenção de riscos, acesse nossa página de serviços ou entre em contato com a equipe.

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Ludopatia no trabalho Ed. 418, p. 36, outubro/2026.

Data da postagem:

Tags:

Postagens Recentes:

Fale conosco

Entre em contato. Nosso horário de atendimento é das 8 hs às 17 hs, no telefone: (11) 4584-6693.

Empresa

Prestação de serviços de assessoria, consultoria e treinamento nas áreas de Segurança do Trabalho e Saúde Ocupacional desde 1999.

Contato