Tecnologia como aliada
Ergonomista e professor da USP reflete sobre os impactos da Inteligência Artificial na SST
Entrevista à jornalista Marla Cardoso
Da hora que acordamos até dormir, gostando ou não, a tecnologia está integrada a nossa vida. No trabalho, então, seu protagonismo é ainda maior. E a velocidade com que essas tecnologias são aprimoradas é digna de assustar os mais avessos a esses avanços. Ciente dessa realidade, o desafio da Inteligência Artificial na Saúde e Segurança do Trabalho foi um dos temas que o Congresso de SST da Proteção abordou no final de 2024, em São Paulo, com a presença de quatro especialistas das áreas de segurança e tecnologia.
Entendendo o tema como super atual e necessário, a revista propôs uma mesa de debates para provocar reflexões nos profissionais sobre como eles estão se relacionando com essa e outras tecnologias.
Um dos palestrantes, o fisioterapeuta, engenheiro em Mecatrônica, engenheiro de Segurança do Trabalho, doutor em Produção, diretor da Abergo (Associação Brasileira de Ergonomia e Fatores Humanos) e professor da Universidade de São Paulo, Eduardo Ferro, se define como um ativista do tema. Nessa entrevista exclusiva, concedida após o debate Inteligência Artificial na SST – Está aí um novo desafio, ele conta porque ainda há tanto receio da Segurança do Trabalho em adotar tecnologias na prática profissional e como a IA pode ser utilizada para o aprimoramento da área.
Quando a tecnologia entrou na sua história acadêmica e profissional e por que aconteceu esse movimento? Desde criança eu sempre gostei muito de eletrônica, montava e desmontava carrinho de controle remoto, aquela coisa de criança que mais abria e destruía os brinquedos por dentro do que brincava. Na pré-adolescência, por volta dos 13 anos, fiz um curso de eletrônica por correspondência. Depois, quando eu fui para faculdade e, por influência da minha irmã, que é fisioterapeuta, cursei Fisioterapia. Eu gostava da área, mas também de equipamentos, das tecnologias. Eu não gostava tanto dos atendimentos manuais, mas daqueles que utilizam tecnologia. Quando me formei, acabei tendo a primeira oportunidade de trabalho com ergonomia, aprendendo a área na prática. Depois, abri uma consultoria na área de ergonomia, focada em medidas preventivas para as empresas, mas eu queria mexer nos processos, nos equipamentos, nas causas raízes. Naquela época, 1998, a computação estava sendo introduzida no Brasil e a tecnologia ajudava no cadastro de pacientes em softwares. A própria Segurança do Trabalho fez eu gostar das tecnologias, porque eu aprendi a fazer laudos, apresentações, criar design, fui aprendendo sozinho. O gosto por querer resolver os problemas da área me levou para a área de Engenharia. Comecei pelo mestrado em Engenharia de Produção, fui para o Doutorado e no meio do doutorado cursei Engenharia Mecatrônica. O mestrado e o doutorado em Produção me ajudaram com as questões de processos, a fisioterapia com a questão humana, mas faltava desenvolver soluções aplicadas com computação, por isso a Engenharia Mecatrônica. Percebi, então, que podia não trabalhar em fábricas, mas desenvolver soluções com algoritmos, programação, softwares, com a própria automação. Em 2006 publiquei o primeiro livro sobre Análises de Riscos Ergonômicos, que era vendido com um software construído por mim e pelo meu irmão. Hoje é isso que se faz no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos), na Análise Ergonômica Preliminar. Na sequência, desenvolvi outro sistema para ginástica laboral, que trazia figuras com sugestões de exercícios de acordo com as regiões que precisavam ser trabalhadas. Entrei na área de SST para desenvolver soluções. Buscava junto aos SESMTs (Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho) as dificuldades de gestão e trabalhava para construir ferramentas. Hoje sou professor da USP (Universidade de São Paulo) e consegui montar um laboratório para que os alunos fizessem protótipos de automação para a área de SST, ensinando como funciona, por exemplo, dosímetros, construindo protótipos. Depois veio a pandemia e a tecnologia ficou mais presente e, com o fim da pandemia, a inteligência artificial.
Nesses primórdios, que potencialidades já enxergava na tecnologia que poderiam ajudar a SST? Uma das coisas que eu visualizei com a prática de Comitês de Ergonomia era que a tecnologia podia unir mais todos os envolvidos da área. Eu trabalhei em uma companhia e cuidava de outras 13 unidades no Brasil e utilizava o Skype, utilizava o compartilhamento de tecnologias mostrando na câmera, então já existiam alguns recursos. Precisávamos que as outras unidades fizessem o trabalho padronizado. Existiam duas tecnologias para isso: pegar um avião e ir até lá treinar, ou o computador com internet. O que precisávamos era construir sistemas que pudessem ser compartilhados com as demais unidades. Estamos falando de uma época em que nem falávamos em aula EAD. Precisávamos usar essas tecnologias para treinamento, para mostrar resultados. Não só para a geração de relatórios, mas para treinamentos e produção de conteúdos de educação sobre SST. A internet favoreceu que não fosse necessário estar presencial nos locais, mas possibilitando estar com as equipes uma hora toda a semana on-line. Mas também não adiantaria ficar só cara a cara virtualmente. Era preciso de outra interface. Foi onde eu percebi que precisava desenvolver interfaces para que essa comunicação funcionasse. Como a área de SST tem muitas informações, já foi-se o tempo de colocar em malotes ou em papel. Hoje podemos desenvolver soluções em tela, que todos têm acesso. Esse para mim é o melhor ganho, porque a gente se aproxima. Já começavam a surgir formas de promover a comunicação entre os SESMTs para compartilhar situações da área.
E qual o papel da Inteligência Artificial nesse contexto? Era o que estava faltando. Às vezes a gente passa horas programando, tentando achar um erro de código e a Inteligência Artificial otimiza isso. Não que ela irá fazer o trabalho do programador, mas na hora que estamos fazendo um software, às vezes precisamos de um código específico de uma biblioteca e se gasta horas para achar ou para construir. A IA ajuda a complementar esse desenvolvimento. Se com o desenvolvimento de programas eu já conseguia ajudar a SST, ao entrar a IA, poderia ajudar muito mais. Mas não basta só eu saber mexer com IA e entregar a solução para o cliente. Se eu oferecer ao cliente a educação computacional, ele consegue transpor melhor o que precisa e resolver os problemas básicos que ele tem no dia a dia. A IA é a melhor ferramenta que existe hoje para ajudar no processo de educação prevencionista.
Há uma resistência da área para essas soluções? Existia e ainda existem vários receios. Primeiro podemos pensar nas dificuldades. Como existe uma geração de transição, entre o que não era tecnológico e que agora é, há um certo medo da complexidade, de achar que é difícil. No começo realmente foi. Hoje não é mais. Falo para os meus alunos que hoje para aprenderem automação não é preciso mais fazer cinco anos de curso. A própria IA pode ser utilizada como fonte de consulta. Se você pedir para ela montar um plano de treinamento em SST, ela monta. Quer aprender determinado assunto? Pergunte para a IA e ela te explica. Algumas pessoas têm receio de que isso seja superficial, mas não, é um diálogo, quanto mais se dialoga, mais fica profundo. A primeira questão pode ser superficial: monte um plano de aula, mas depois tudo é aprimorado. É como se estivesse conversando com autores especialistas da área. Não ignora o saber do profissional. As pessoas têm medo de ficarem burras e acham que não vão precisar mais pensar, mas as IAs se alimentam do saber. Se a pessoa não dialogar com informações, a partir do seu contexto, essa interação será rasa e não serve. É preciso dizer aquilo que se está precisando para ela ajudar a explorar ou indicar onde é possível estudar. Isso é legal porque a IA indica o ponto de partida e nós precisamos ir atrás. Por isso, a produção de conhecimento segue sendo imprescindível. Se pararmos de produzir, a IA pegará só dados pregressos. Eu nunca estudei tanto na minha vida como eu tenho estudado recentemente para poder dialogar com a IA, só que é um estudo orientado, vejo o que preciso e estudo o que preciso. Existe outro medo que é a perda do emprego, mas esse receio faz parte da humanidade. Desde os teares, depois vieram as automações bancárias, nos supermercados. Sempre houve essa resistência, mas percebemos que o índice de desemprego cai no país a cada ano. As pessoas precisam estudar as novas tecnologias, entender, porque elas se complementam com a nossa análise crítica e promovem a criatividade. Ela busca dados, expõe na tela informações e é nosso papel transformar essas informações em conhecimento e aplicar.
Existem empresas que já utilizam essas soluções em benefício da SST? Hoje encontramos muitos softwares, só que com uma proposta nova. Eles sempre foram criados a partir do desenvolvimento computacional, mas agora é possível personalizar. O que mais existe na atualidade é o desenvolvimento de softwares para gestão. Muitas análises de risco, gestão de riscos, análise de dados de Higiene Ocupacional, todas essas informações acabam indo para a digitalização e a Inteligência Artificial ajuda a desenvolver softwares personalizados, aplicados ao cliente. Esses sistemas fazem parte dos próprios equipamentos de medição, por exemplo. Muitas vezes, a gente analisava centenas de relatórios de medições, hoje os equipamentos já têm essas medições mais diretas, facilitando bastante. Como perspectiva futura temos uma terminologia que chamamos de computação ubíqua, que é estar presente em todos os lugares. Baseado na ergonomia, quando analisamos o movimento, já existem sensores para investigar a biomecânica, mas também uma onda que junto com esses sensores examina a frequência cardíaca, pressão arterial, todos os dados fisiológicos e as alterações que ocorrem durante a tarefa. Com a tecnologia, o que mais crescerá são os estudos sobre as interfaces entre humanos e sistemas. No passado, o trabalhador precisava interagir com uma máquina, ficávamos filmando e olhando essa interação. Agora é tudo por sensor. É possível saber quantos movimentos, quantos erros, quantos metros ele andou. Vai ser cada vez mais comum que o trabalhador se vista de toda a inteligência de monitoramento. Se ele entrar no espaço confinado, é possível acompanhar cada batimento cardíaco, a respiração, cada movimento, do lado de fora. Em consultorias que eu fiz bastante na área da mineração, se monitorava quem entrava na mina olhando o crachá que ficava pendurado do lado de fora. Agora, com a tecnologia, é possível localizar onde está esse trabalhador e seus movimentos. Algumas empresas estrangeiras já estão trazendo essa tecnologia para o Brasil, mas daqui para a frente vai aumentar, porque os sensores estão cada vez mais baratos.
Outra beneficiada é a área de treinamentos em SST, certo? Se temos a realidade virtual, a realidade aumentada, a mista, que pode simular as ocorrências, elas não vão acontecer. Vamos chegar num nível de segurança muito maior. Eu não preciso colocar fogo em mais nada para poder entender como é que funciona o combate ao incêndio. Isso pode ser simulado com realidade virtual aumentada. Os ambientes de educação digital também são outra vantagem. A empresa não precisa mais mandar o funcionário para fora da empresa para fazer cursos, aprender, ela consegue trazer isso tudo para dentro de um sistema.
A formação dos profissionais do futuro já tem as tecnologias incorporadas? Essa questão não está na velocidade que deveria, porque as pessoas têm receio, os próprios formadores fazem parte da população que têm esse medo. Encontramos professores avessos à tecnologia ou mesmo profissionais que poderiam motivar mais o trabalhador e ainda não estudam essa relação tecnologia e sociedade sob o ponto de vista produtivo. A velocidade é lenta e os esforços insuficientes para o que precisamos. O que precisamos não é uma formação tecnológica, ela é humano tecnológica, saber o potencial da tecnologia na sociedade. Já vi cursos tirando essas disciplinas dos seus currículos ou elas sendo menos valorizadas. Há pessoas que até querem estudar as tecnologias, mas não os problemas sociais, assim não adianta. Assim teremos um excesso intelectual de formação tecnológica sem saber onde aplicar. Disciplinas como inteligência artificial já tem que começar a fazer parte do Ensino Básico, desde criança é preciso começar a aprender sobre isso.
A geração futura que irá trabalhar na SST já nasceu conectada. Mas se na formação isso não é discutido, como essa tecnologia será levada para a prática na área? Aí a necessidade de esforços, tais como a Proteção faz, que eu vou chamar até de ativismo, que é criar, gerar informação, fazer a divulgação científica disso. Quando vocês produzem uma matéria, realizam um congresso, estamos levando essa informação e reunindo os profissionais que podem influenciar a inserção desses assuntos na formação. Antes da pandemia as pessoas não gostavam de cursos EAD. A pandemia fez muita gente se habituar e hoje está normalizado. Por isso precisamos levar informação para que as pessoas tenham aprendizado sobre essas ferramentas. Além da educação para a tecnologia, precisamos de educação midiática. Pegar essas informações e disponibilizá-las de forma pública e aberta para chegar em quem precisa chegar. Essa geração nova tem muito disso. Quando eles aprendem algo, querem ensinar alguém e para isso eles produzem conteúdo. Quando nós produzimos conteúdo disseminamos essa informação e isso pode chegar nas grades curriculares, nas políticas públicas, para as pessoas fazerem uso. Precisamos desse ativismo da informação porque a IA busca as informações. Se a gente não produz, a IA irá buscar daqueles que estão produzindo um mau conteúdo. Um ponto que a Proteção se adaptou, e que as escolas também precisam se adaptar, é que a informação não deve estar presa aos muros da escola. Ela precisa estar nas redes sociais, não só nos portais acadêmicos. A separação entre divulgação científica e aplicada, esse muro não deve existir. Um material tem que ser colocado não só em um site e uma revista, mas em um blog, em redes sociais. A nossa postura, que também é um ponto de educação midiática é, ao ver um conteúdo bom sobre a nossa área, curtir, compartilhar, porque esse conteúdo aparecerá melhor nas buscas. É nossa obrigação enquanto usuários da informação sempre avaliar as informações que consideramos boas.
Você é otimista em relação à ampliação dessas tecnologias na Saúde e Segurança do Trabalho? Otimista e realista. Essas tecnologias são criações humanas para ajudar o ser humano. Muita gente associa a tecnologia àquela imagem que o cinema por vezes retratou, como se fossem coisa de outro planeta e que tivessem surgido para lutar com a gente, mas elas não foram criadas por outros, foram criadas por nós mesmos. Nós é que vamos decidir o que ela tem que fazer. Se as pessoas fizerem o uso adequado delas, vamos decidir sempre pelo seu bom uso. Precisamos entender que elas foram criadas com algum benefício, para resolver algum problema da sociedade. Quando existia muito problema de ruído, tecnologias entraram para reduzir, medir. Quando surgiu a LER/DORT, a automação veio para tirar tarefas repetitivas, monótonas, fatigantes. Agora, o problema é a quantidade de dados e informações disponíveis, e temos com isso as sobrecargas mentais. Neste cenário, as tecnologias nos ajudam a fazer o filtro, porque mostram na tela aquilo que perguntamos. Ela veio para minimizar a carga mental.
Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Tecnologia como aliada Ed. 397, p. 8, janeiro/2025.