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Doutora em Saúde Pública reflete sobre o aumento das jornadas, especialmente no setor da saúde, e seus efeitos

Entrevista à jornalista Daniela Bossle

A professora Frida Marina Fischer, 71, natural de Araguari/MG, graduou-se no início da década de 70 em Ciências Biológicas pela USP (Universidade de São Paulo). Poucos anos depois deu uma guinada em sua carreira. Era 1974 e ela preparava-se para o mestrado em Saúde Ambiental quando seu orientador se mudou para uma unidade da USP no interior de São Paulo, tornando-se difícil a comunicação entre eles. Foi quando ela conheceu o médico e professor Diogo Pupo Nogueira, um dos pioneiros na área de saúde do trabalhador. Ele lhe sugeriu mudar seu projeto de mestrado para uma área ainda muito pouco explorada no país: o trabalho em turnos e noturno e seus efeitos na saúde dos trabalhadores. A partir daí um novo universo se abriu para ela. Acabou fazendo mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Saúde Pública dedicando-se a estudar em profundidade sobre a organização do trabalho em turnos e noturno e outras linhas de pesquisa afins, inseridas na grande área temática de saúde do trabalhador, da organização do trabalho e da ergonomia. Frida completou 40 anos de docência na Universidade de São Paulo em 2020 e continua ativa, ministrando aulas e orientando alunos na Faculdade de Saúde Pública na área de Saúde do Trabalhador. Ela também integra conselhos científicos de entidades nacionais e internacionais como Abergo (Associação Brasileira de Ergonomia), Anamt (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), Working Time Society, Board da ICOH e é membro do Subcomitê da ICOH Shiftwork and Working Time.

Fiquei curiosa sobre o que a levou a entrar para a área de saúde do trabalhador, uma vez que inicialmente sua graduação foi em Ciências Biológicas… Fiz Ciências Biológicas em 1971 e meu primeiro interesse por pesquisa se deu em saúde ambiental na área de tratamento de águas por microrganismos aquáticos, onde iniciei o mestrado. Meu primeiro orientador foi um grande ecólogo, professor Samuel Murgel Branco, que em determinado momento decidiu se mudar para uma unidade da USP no interior de São Paulo. Nossa comunicação ficou muito difícil porque não tínhamos internet, a Faculdade de Saúde Pública só tinha um telefone, e só conseguíamos nos comunicar por cartas. Foi quando encontrei outro grande mestre, o professor Diogo Pupo Nogueira. Tomei conhecimento do tema da Saúde Ocupacional e recebi o convite dele para explorar esta área. Pedi transferência de orientador e mudei o tema, por sugestão do professor Diogo, para um tema de pesquisa que segundo ele ninguém no Brasil ainda estudava, que era a organização do trabalho em turnos e noturno. Frequentemente o professor Diogo e outros professores recebiam solicitações para emitir pareceres que vinham de instituições patronais e de trabalhadores sobre a área de Saúde Ocupacional. Uma empresa enviou uma carta ao professor Diogo solicitando sua opinião sobre uma escala de trabalho em turnos que estava afetando os funcionários. Isso ocorreu na década de 1970. Então quando você pergunta como é que eu passei de bióloga que estudava microrganismos para esta área, digo que meus anos como bióloga analisando ecossistemas de microrganismos aquáticos no tratamento de águas me permitiram entender a complexa relação e o cenário que há entre os organismos à medida em que o ambiente vai se transformando.

Migrou dos organismos aquáticos para os organismos humanos!
Mesmo sendo áreas distintas, em ambas eu tinha que observar de forma sistêmica o que e como as comunidades de trabalhadores lidavam em seus cotidianos de trabalho e como iam se modificando ao longo do tempo. No caso da saúde do trabalhador, o cenário onde se dão as atividades de trabalho é complexo e o olhar sistêmico é muito importante. A organização do trabalho é um dos principais fatores que afeta muitos outros aspectos na atividade cotidiana: as demandas do trabalho, tanto físicas como psíquicas; as relações de trabalho horizontais, verticais e externas; a presença de fatores psicossociais negativos; os estressores presentes que podem afetar tanto positiva quanto negativamente as comunidades de trabalhadores. Então, esta transição dos organismos aquáticos para o olhar sobre o trabalho humano sempre foi sistêmica e este foi o meu treino ao estudar Ecologia: entender de forma sistêmica, como se dava a atividade, quais eram as relações e as transformações que iam ocorrendo. Ao longo da minha carreira decidi também me especializar em Ergonomia e fui convergindo meus estudos e pesquisas para compreender como as organizações de trabalho, incluindo o trabalho em turnos e noturno repercutiam no trabalho e fora do trabalho para os trabalhadores.

Interessante! Então o seu mestrado já foi nesta área de trabalho em turnos e noturno? Foi e o professor Diogo, que fazia parte do corpo editorial da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional no começo da década de 1980 falou assim: ‘Vamos tentar publicar o seu trabalho como um encarte da Revista’. Submeteu a proposta ao editor científico da RBSO e decidiram fazer da minha dissertação de mestrado um encarte da Revista. Aí de repente, este assunto que nunca tinha sido motivo de debate, surgiu no cenário brasileiro. Os problemas já existiam, claro, só que até onde eu sei, não havia ainda pesquisas e artigos a respeito. A partir daí passei a ser convidada a dar palestras em muitos congressos, em muitas reuniões científicas. Eu já era professora da USP e completei o doutorado com um estudo sobre acidentes e ausências ao trabalho na indústria automobilística, setor que naquela época estava no auge. Tinham muito menos montadoras de veículos, mas com muitos empregados em cada indústria. Hoje a automação reduziu substancialmente a quantidade de empregados em cada empresa. Um dos problemas era a alta rotatividade. Se vendiam menos carros, mandavam um monte de gente embora; se aumentavam a produção, admitiam ou readmitiam pessoas. E esta rotatividade elevada impactava nos acidentes de trabalho e nas ausências. A área de prevenção de acidentes tem a ver com o conhecimento do trabalho. Cada vez que você admite gente nova tem que treinar novamente porque são pessoas que não estão familiarizadas com os processos de trabalho. Depois fiz pós-doutorado na Alemanha, no Instituto de Fisiologia, em Dortmund, em 1984. Era talvez uma das melhores instituições, se não a melhor do mundo, em Fisiologia do Trabalho. Lá tive um outro grande mestre: o professor Joseph Rutenfranz, que trabalhava na área de trabalho em turnos. Conheci muitos pesquisadores, os trabalhos de campo eram formidáveis. Quando voltei ao Brasil, eu já tinha planos para muitos projetos, porque tinha visto um outro cenário de investigações muito mais rico, do que havia na época no Brasil.

Recentemente foi publicado estudo internacional da OIT e OMS que aponta maiores riscos de doença cardíaca e acidente vascular cerebral entre pessoas que trabalham longas horas por semana em comparação àquelas que trabalham horas normais. A senhora pode comentar sobre o estudo? Sempre houve controvérsias se trabalhar muito faz mal à saúde. Um grande número de pesquisas mostra que sim. A OMS e a OIT resolveram planejar avaliações globais convidando um grupo de pesquisadores que analisaram milhares de publicações. Este estudo que você refere não foi o primeiro. Já havia sido publicado em 2020 efeitos na saúde entre os que trabalham longas jornadas (long working times). Usualmente estas são compreendidas como trabalhar acima de 44 horas por semana. Os estudos mostraram que longas jornadas de trabalho iguais ou acima de 55 horas por semana aumentam de forma significativa o risco tanto de doença isquêmica cardíaca como de acidente vascular cerebral. Agora em 2021, este outro artigo em que participei, não como autora, mas como membro do grupo técnico consultivo, mostra que quando se compara dados de grandes populações no planeta, com relação à carga atribuível por incapacidade por doença isquêmica do coração e por AVC, controlando por sexo e faixa etária, o risco da pessoa ter maior número de mortes e incapacidades provocadas por estas duas doenças mencionadas é significativamente maior naqueles que trabalham 55 horas por semana ou mais, comparados com aqueles que trabalham 40 horas. Este estudo foi conduzido antes da atual pandemia e inclui dados de 2000, 2010 e 2016. Seria muito interessante ver agora como as tendências por doença e mortalidade estão se comportando para estas duas doenças e como serão daqui para frente.

Estamos trabalhando mais durante a pandemia? Embora tenha havido uma perda importante de empregos decorrentes da pandemia atual, há dezenas de milhões de pessoas que estão trabalhando de forma presencial e em suas residências. Há estudos mostrando que tem ocorrido uma intensificação da jornada de trabalho, principalmente entre os trabalhadores das plataformas digitais, nas quais se incluem as tele entregas. Sabe-se que a chamada ‘uberização’ do trabalho significa um número importante de horas de trabalho por semana para se ter um vencimento que dê para a pessoa sobreviver. Se você perguntar a um motorista de Uber quantas horas ele trabalha, geralmente são 10 a 12 horas ou mais por dia, 6 ou 7 dias por semana. A pesquisa da OMS e da OIT citada é um alerta importante sobre o número excessivo de horas de trabalho, algo que atinge praticamente todas as regiões do planeta, e que faz com que aumente o número de dias de vida perdidos por doenças e mortes pelas causas mencionadas: acidente vascular cerebral e doença isquêmica do coração. A publicação a que estamos nos referindo está on-line, chama-se ‘Cargas globais, regionais e nacionais de doença isquêmica do coração e acidente vascular cerebral atribuíveis à exposição a longas horas de trabalho para 194 países, 2000-2016’ (https://bit.ly/3cNUtc3). Tem muitas informações interessantes. Por exemplo, em 2016, o número de pessoas que trabalhava 55 horas ou mais no mundo por semana, era perto de 500 milhões. Então os cálculos mostram que perto de 750 mil mortes e mais de 23 milhões de anos de vida perdidos foram impactados pela incapacidade por doença isquêmica do coração e acidente vascular, combinados. E estes efeitos são atribuíveis ao fato de se trabalhar 55 ou mais horas por semana. Não podemos minimizar estes dados. Morrer mais de meio milhão de pessoas e ter este imenso número de dias perdidos não é algo insignificante, se você considerar que são indivíduos que vão morrer ou ficar incapacitados quando ainda são pessoas ativas. O problema é maior no Sudeste da Ásia e nos países do Pacífico Ocidental que inclui Japão, Coréia do Sul, China, Vietnã, Filipinas entre outros; na América do Sul também há países andinos identificados no estudo. Atinge principalmente homens, que têm cargas de trabalho mais prolongadas. A OMS e a OIT chamam a atenção para o fato de que ‘trabalhar muitas horas’ é a principal causa de morte por estas doenças. Estamos na época das plataformas digitais e supostamente deveria se ter menos problemas e se trabalhar menos. Mas no final do século 20 e no século 21 tem havido maior precarização e intensificação do trabalho.

Que ironia, né?
É uma ironia com certeza. Temos no Brasil 14,5 milhões de desempregados, fora os desalentados, mas os que estão trabalhando, estão trabalhando muito! A carga de trabalho, mesmo na universidade, aumentou muito nas últimas décadas porque aumentaram as atribuições para os professores e funcionários administrativos sem a contrapartida de ter muita gente para fazer o que deve ser feito no cotidiano. Temos menos pessoas e muito mais demandas e metas a alcançar. Até a própria universidade caminhou no sentido da intensificação do trabalho. Alguém pode pensar que esta pesquisa da OIT é particular, focada só em um grupo de trabalhadores. Não, ela envolve todos os grupos de trabalhadores. Este artigo que saiu neste ano é bastante complexo, tem muitos dados, mas acho que o mais interessante para quem não é especialista no assunto é observar as localizações geográficas onde está ocorrendo mais este problema e o que os governos deveriam fazer no sentido de proteção à saúde, pelo menos evitando longas jornadas de trabalho.

Por falar em longas jornadas, a Medida Provisória 1.046 flexibilizou aspectos da legislação trabalhista por 120 dias como, por exemplo, a permissão para prorrogação de jornadas em estabelecimentos de saúde para até 24 horas. Qual sua opinião? Esta medida provisória é uma reedição de uma MP publicada em março do ano passado que trata de vários assuntos: jornada de trabalho, tele trabalho etc. O artigo 27 menciona sobre a prorrogação da jornada: ‘fica permitida aos estabelecimentos de saúde durante o prazo definido no artigo primeiro, inclusive para as atividades insalubres e para jornadas de 12 horas de trabalho por 36 de descanso’. Quem faz jornada de 12h por 36h? São principalmente os trabalhadores do setor da saúde. No artigo segundo é mencionado ‘adotar escalas de horas suplementares entre a 13ª e a 24ª hora do intervalo interjornada sem penalidade administrativa’. Isto é exatamente o que os estudos da OMS e da OIT estão dizendo: que trabalhar longas jornadas faz mal, aumentam os riscos de doenças isquêmicas do coração e de doença cardiovascular! A MP afirma que a pessoa pode trabalhar até 24 horas consecutivas e descontar depois em banco de horas. Isso vai na contramão do que as evidências mostram! Quando vi essa Medida Provisória, não acreditei que isto está posto na atualidade para os profissionais da saúde, principalmente são eles e elas os que trabalham neste sistema de 12 por 36 horas.

Há anos a senhora estuda a organização do trabalho na atividade de enfermagem. Que efeitos estas prorrogações de jornadas de trabalho em turnos e noturnos podem provocar? Há muitos anos estudo este tema com colegas e alunos de pós-graduação. Publicamos numerosos artigos sobre a enfermagem e o envelhecimento funcional precoce. O que é isso? É quando o profissional fica incapacitado de continuar trabalhando por causa das suas condições de saúde, e esta condição não está necessariamente associada com a idade da aposentadoria. Por exemplo, se a pessoa tiver um acidente de trabalho sério ou uma doença grave relacionada ao trabalho, a pessoa pode nunca mais conseguir voltar a trabalhar ou pode vir a falecer. Pensando no momento atual, nos profissionais de saúde que contraíram a Covid-19, que neste caso é uma doença relacionada ao trabalho, uma quantidade significativa deles faleceu ou não conseguiu continuar trabalhando por causa de suas condições de saúde. Isto ocorreu tanto na área de enfermagem, quanto médicos e funcionários de centros de saúde ou de hospitais. Então, no caso do envelhecimento funcional, se a instituição apresenta condições de trabalho adversas e as demandas são excessivas, esta pessoa não vai conseguir trabalhar o número de anos que ela precisaria para se aposentar. Ela irá ficar doente e se afastar precocemente. Isso é uma grande perda, não só para o indivíduo, mas para o país, que perde pessoas competentes, e num mercado de trabalho carente de bons profissionais, principalmente agora em meio à pandemia.

 

DOENÇAS E MORTES POR EXCESSO DE TRABALHO 

Estudo da OMS e OIT divulgado recentemente traz dados sobre doenças e lesões relacionadas ao trabalho em 194 países: : Globalmente, em 2016, 488 milhões de pessoas foram expostas a longas horas de trabalho (55 horas/semana ou mais).
: Esta exposição teve 745.194 mortes atribuíveis e 23,3 milhões de DALYs (*) por doença cardíaca isquêmica e acidente vascular cerebral. : Isto representa 4,9% de todas as mortes e 6,9% de todos os DALYs (*) por essas causas. : A maior sobrecarga de trabalho foi identificada em países do Pacífico Ocidental e Sudeste Asiático, principalmente em homens e pessoas mais velhas.

*DALY: Ano de vida sadio perdido

** Fonte: Cargas globais, regionais e nacionais de doença isquêmica do coração e acidente vascular cerebral atribuíveis à exposição a longas horas de trabalho para 194 países, 2000-2016 (https://bit.ly/2Sv70KL).

São estas pessoas que estão cuidando de quem está ficando doente. E o risco de adoecimento e morte destas pessoas que trabalham mais horas por semana é muito maior do que se elas trabalhassem menos horas. Há duas questões graves: você coloca profissionais de saúde numa situação adversa de maior risco ocupacional de contaminação e de exaustão e ao mesmo tempo fica difícil imaginar como uma pessoa que trabalha tantas horas pode cuidar direito dos pacientes… E esta medida provisória diz que é para ‘proteção do emprego’! Mas que proteção é esta? Isto não é proteção, nem para os trabalhadores, nem para os pacientes.

O trabalho em turnos por si só já é um agravante e a flexibilização de jornada piora ainda mais a situação destes trabalhadores? O trabalho em turnos, particularmente aquele que é de longas jornadas e também inclui o trabalho noturno, faz mal à saúde. Há uma quantidade importante de doenças associadas ao fato da pessoa não trabalhar de dia e/ou trabalhar muitas horas. Desde o aumento do risco de se infectar com doenças porque altera-se o sistema imunológico ao se trabalhar à noite, em horários que interferem no ciclo normal da vigília diurna e no repouso noturno. Foi feita uma revisão recente pelo IARC, que é a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, mostrando que o trabalho em turnos e noturno está associado a vários tipos de câncer. Foi classificado com a categoria 2A, como provável associação com o desenvolvimento de câncer, principalmente de mama. Outros problemas ocorrem: doenças gastrointestinais; dificuldades para engravidar e para manter a gestação; aumento de incidentes e erros causados por sonolência excessiva que podem ocorrer quando o indivíduo está trabalhando à noite, mas também durante o dia, se ele estiver com muito sono; aumento de mortes nas estradas quando a pessoa está dirigindo; distúrbios de ordem mental devido a alterações do sono, da memória e outros problemas psíquicos. Existe uma regra de ouro que deve ser aplicada: quanto mais noites uma pessoa trabalha, pior para a saúde desta pessoa. Então, o trabalho noturno fixo é pior do que aquele em que o trabalhador fica poucas noites no trabalho, ou seja, a maior parte do tempo não trabalha à noite. Faço parte de uma associação internacional chamada Working Time Society que publicou em janeiro de 2019, num periódico de acesso livre chamado Industrial Health, mantido pelo Instituto Nacional de Saúde e Segurança Ocupacional do Japão, nove artigos sobre trabalho em turnos e que vale consultar (https://bit.ly/2U9BjHg).

Quais são as medidas que a senhora recomenda às empresas do ponto de vista da prevenção quando elas têm trabalho em turnos ou noturnos? Recomendo as melhores condições de trabalho possíveis, tanto nos aspectos físicos, químicos e biológicos, como nos aspectos organizacionais. Dentre as recomendações, horários de trabalho que privilegiem o trabalho diurno. E que, onde necessariamente há que ter trabalho noturno, que os trabalhadores possam descansar ao longo de suas jornadas de trabalho, que haja mais pausas intra e interjornadas, que sejam evitadas ou reduzidas as longas jornadas de trabalho, que haja um acompanhamento de saúde pelo serviço de Saúde Ocupacional/Saúde do Trabalhador, que sejam monitoradas condições de trabalho, além da própria escala, que podem provocar doenças e acidentes de trabalho. Entre alguns dos muitos estressores que importam, eu me referi na sua pergunta anterior aos ‘fatores psicossociais do trabalho’ que influenciam em várias esferas da organização, principalmente nas relações de trabalho, na autonomia, no controle do trabalho, na valorização ao trabalhador, no respeito, na saúde e no agravamento de doenças. E justamente estes fatores, pelo que fiquei sabendo, foram omitidos das novas Normas Regulamentadoras!

E as estatísticas demonstram que os afastamentos e incapacidades para o trabalho por conta de transtornos mentais relacionados ao trabalho têm crescido muito nos últimos anos. Devem aumentar com a pandemia? Os fatores psicossociais do trabalho estão relacionados diretamente aos transtornos mentais. Excluídos os acidentes típicos, eles são a segunda causa de afastamento do trabalho. O país perde uma quantidade imensa de dinheiro e de mão de obra capacitada. É uma perda enorme para o país e aí você vai fazer de conta que eles não existem? Você só pode impedir que isto exista na regulamentação quando você melhora as condições de trabalho. Mas respondendo objetivamente sua pergunta: sim, a pandemia agravou muitos problemas nas relações de trabalho. A começar pelo desemprego, pois ele agudiza a saúde mental, as famílias ficam sem recursos para se manter, houve falecimento de amigos e familiares por Covid-19, e estas situações tem sérias repercussões mentais. Inclusive isso tem contribuído, segundo dizem alguns estudiosos, para o aumento da ideação suicida e do número de tentativas de suicídios e de suicídios. Os problemas mentais que antes eram considerados aspectos menores, na última década, especialmente, tornaram-se a segunda causa de afastamento no trabalho. E o retorno ao trabalho após afastamento por doença mental costuma ser mais demorado, mais longo, mais difícil. Não é uma situação em que um simples medicamento resolve. É necessário todo um acolhimento e apoio para que aquelas pessoas que se afastaram por problemas mentais consigam retornar e continuar trabalhando.

Gostaria de acrescentar algo?
A pandemia mudou a configuração do trabalho. Para alguns ficou melhor, mas para muitos ficou pior e certamente será necessário monitoramento e investigação continuada durante muito tempo. Não só para entender os efeitos da pandemia em função do grande número de falecimentos de trabalhadores e familiares, mas também para se pensar em medidas de apoio institucional que deverão vir de políticas públicas do Estado Brasileiro e de organizações de trabalhadores e de empresas, para haver de fato trabalho saudável para todos, pós-pandemia.

Leia a entrevista completa no QRCode ao lado.

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Estamos trabalhando muito. Editora Proteção Publicações. Ed. 355, p. 10, julho/2021.

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