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Grandes acidentes e a evolução das indústrias para melhorar resultados e reduzir impactos ao homem e meio ambiente

Entrevista à jornalista Daniela Bossle

Graduado em Engenharia Mecânica pela FEI (Faculdade de Engenharia Industrial) em São Paulo, Renato Fernando Mendes, 67 anos, esteve na maior parte de sua vida, ligado ao setor de óleo e gás, especialmente na Petrobras, onde permaneceu por 42 anos. Lá iniciou como especialista na área de caldeiraria na construção de plataformas, depois junto ao setor de Qualidade e finalmente nas áreas de Confiabilidade, Análise de Risco e Segurança de Processos. Cursou mestrado em Confiabilidade nos Estados Unidos, fez também a especialização em Engenharia de Segurança, e possui certificação em Confiabilidade.

Em sua bagagem traz trabalhos relacionados a estudos de riscos em situações complexas como plantas industriais e faixas de oleodutos próximas a comunidades, investigação de acidentes industriais, estudo em instalação de GNL, e ensino em Segurança de Processo. Mendes nos fala sobre a evolução da Segurança de Processo no mundo e no Brasil, e o que é preciso para que uma indústria tenha êxito sem acidentes e perdas para trabalhadores, empresas e comunidades.

Neste ano, assumiu a presidência da Associação Brasileira de Análise de Risco, Segurança de Processos e Confiabilidade e atua também como consultor. A jovem entidade, da qual foi um dos fundadores, completa 10 anos em dezembro, e de 22 a 24 de novembro realiza o seu 5º Congresso, desta vez em formato online. Veja em https://congressoabrisco.com.br

Qual o enfoque da Segurança de Processos e no que ela se diferencia da Segurança do Trabalho? Tanto a Segurança de Processo quanto a Segurança do Trabalho têm enfoque no homem. Mas enfoques em instantes diferenciados. A Segurança do Trabalho sempre observa os impactos diretos do ambiente de trabalho no homem. Já a Segurança de Processo vê como o processo produtivo, em caso de anormalidade, vai impactar o homem e instalações. Ela se pergunta, por exemplo, sobre vazamento, que possa gerar incêndio e se este incêndio pode impactar o trabalhador, quais serão as medidas preventivas para não ocorrer o acidente e quais as medidas reativas para redução das perdas humanas e materiais. Pode uma ruptura gerar uma nuvem tóxica, e como este efeito agudo vai impactar o trabalhador e comunidade próxima? Como a explosão de um equipamento pode impactar o processo e o trabalhador? Portanto, o endpoint também é o trabalhador, mas a abordagem é diferente da Segurança do Trabalho. Enquanto a Segurança do Trabalho analisa os aspectos crônicos, ou seja, os impactos diários ao trabalhador, a Segurança de Processo analisa os impactos agudos, acidentais. Assim como a Segurança do Trabalho, a Segurança de Processo também se encaixa em todas as indústrias de processos. Mais em umas do que em outras. Se encaixa muito bem na indústria química, na indústria de petróleo, de transporte duto viário (gasodutos e oleodutos), na mineração e em inúmeras outras que têm processos que podem ser químicos ou até mecânicos. São equipes diferentes, com perspectivas diferentes, analisando aspectos diferentes, mas todas olhando para o homem como objetivo final. Se bem que a Segurança de Processo também analisa o impacto daquela anormalidade sobre o processo industrial. Enquanto a Segurança do Trabalho olha sempre o homem, a Segurança de Processo analisa os impactos agudos ao homem, mas também ao processo e impactos à indústria e meio ambiente.

A Segurança de Processos ganhou mais força a partir de grandes acidentes que ocorreram no setor de óleo e gás? Nos anos 60 na Inglaterra, a associação das indústrias químicas (Association of British Chemical Manufactures e British Chemical Industry Safety Council) desenvolveu programas dirigidos à segurança dos processos industriais. E nos Estados Unidos, Frank Bird apresentava o conceito de Controle de Perdas. O grande acidente de Flixborough em 1974 na Inglaterra, com a explosão de uma planta industrial que matou e feriu gravemente trabalhadores e causou danos à comunidade próxima, foi um marco importante. Aconteceram ainda outros graves acidentes na indústria onshore nos anos 70 chamando muito a atenção do governo inglês. Deu-se início a uma política de governo intensa. Por fim, em 1975, o HSE (Health & Safety Executive), órgão do governo inglês, implantou o Safety Cases for Industries, conjunto de diretrizes onde a indústria tinha que demonstrar a segurança de seu processo industrial. O HSE começou a fazer estudos de casos para as indústrias onshore analisando as questões de segurança que elas tinham que cumprir para demonstrar o quão seguro era o seu processo. Nesse ínterim começou a surgir a indústria do offshore que foi gigante no Mar do Norte na Inglaterra. O agigantamento desta indústria trouxe também o agigantamento dos acidentes. O offshore não era estudado quanto à Segurança de Processo e em 1988, que não é tão longe assim, ocorreu o grande acidente na plataforma petrolífera de Piper Alpha, também no Mar do Norte, onde morreram 167 trabalhadores. Isso foi a gota d’água para haver uma reforma nos requisitos legais para a indústria offshore. Os órgãos de governo mudaram a sua postura, o órgão regulador não era mais o fiscalizador porque você começa a ter conflitos de interesses. O acidente teve influência muito forte na Comunidade Europeia. Não se pode esquecer também da Diretiva de Seveso, uma regulamentação da Segurança de Processo da Comunidade Europeia publicada em 1982, para a indústria onshore. Cada país da Comunidade teve que se adequar à Seveso criando o seu estudo de segurança. A Segurança de Processo começou a dar os seus passos mais consolidados a partir dos anos 90 no mundo todo.

E no Brasil como foi a sua evolução? No Brasil também tivemos um aprendizado a partir de grandes acidentes na indústria de petróleo. O mais impactante foi o vazamento de grandes proporções na Baía de Guanabara no ano 2000 provocado pelo rompimento de um oleoduto. Isto transformou a indústria de óleo e gás no país devido ao impacto que causou. Foram 1,3 milhão de litros de óleo combustível vazado, que representou 1/31 do que vazou o petroleiro Exxon Valdez, no Alaska, mas com grande repercussão nacional e internacional devido ao impacto direto causado nos manguezais e biota da Baía da Guanabara. Levaram anos para recuperação dos mangues e de todo o ecossistema da região. A conscientização sobre a importância da Segurança de Processo cresceu e tornou-se muito mais atuante a partir do ano 2000. Temos 20 anos de história em Segurança de Processo consolidada no Brasil. As grandes indústrias, que são mais conscientes sobre sua responsabilidade e respeito ao homem e aos perigos que elas oferecem, investiram muito para conscientizar seus trabalhadores e suas diretorias. As coisas têm que vir de cima para baixo, o que nasce de baixo para cima é grama. Na indústria e nos negócios, se não houver o enforcement da diretoria, da presidência, as coisas não funcionam.

Para as grandes indústrias esta cultura da Segurança de Processo está mais enraizada? Nas grandes indústrias sim, nas indústrias multinacionais ou nas que são nacionais, mas de grande capital. Mas, por exemplo, a indústria de mineração, mesmo grande, não olhava muito para este lado. Agora, depois dos grandes acidentes de Mariana e Brumadinho, estão tomando uma diretriz de Segurança de Processo muito mais forte. Estão investindo para ter melhores resultados de qualidade de trabalho, no que diz respeito ao homem e ao meio ambiente. Muita gente da área de petróleo foi para a mineração. Devido aos grandes acidentes que aconteceram as mineradoras maiores contrataram muita gente da área de Petróleo. Eles querem a nata dos profissionais de óleo e gás para lhes ajudarem a visualizar os seus riscos, para que eles possam melhorar, para que eles também tenham um ótimo padrão de trabalho.

No caso específico da indústria de mineração como a Segurança de Processo pode contribuir? Ela pode, por exemplo, entrar com ferramentas de identificação de perigos numa área de exploração de minérios. Dentro da mina você analisa todas as ações de exploração, quais delas podem melhor minimizar riscos ao homem e criar medidas mitigadoras. Você pode analisar, por exemplo, o que o homem pode melhorar no seu procedimento de trabalho de forma que a probabilidade de erro na sua realização diminua. Há um estudo do departamento de energia americano [ DOE HB 1028, de 2009], que diz que de 100 por cento dos acidentes que ocorrem, 20 por cento são relativos a falhas nos equipamentos e 80 por cento são relativos a erro humano. Este erro humano não é um erro meu ou seu, é um erro da organização. É, por exemplo, aquele gestor local que sabe que o operador está tendo uma atitude incorreta e permite sua continuidade, ao invés de corrigir suas ações inseguras. A organização é quem faz a qualidade do trabalhador lá na frente de trabalho. Sim, o trabalhador pode ter acordado mal naquele dia em que se acidentou porque está com um problema sério e não está alerta para o trabalho. Mas a Segurança de Processo tem que olhar também para estes fatores humanos que são fundamentais para você ter um sistema produtivo seguro.

Sim, porque não somos robôs, somos humanos. Mas precisa se fazer uma gestão disto… O homem falha e o homem pode levar a máquina a falhar. E isto devido à organização porque se ela não tiver uma consciência da importância do homem na indústria e achar que ele simplesmente tem que apertar botão, a quantidade de erros pode começar a aparecer de forma elevada. O homem é um elemento extremamente importante na indústria e não é porque ele tem que estar lá para operar a máquina. É porque ele tem que estar lá para operar a máquina olhando para a máquina e não olhando para os seus problemas internos. E a indústria tem que estar preparada para lidar com isto. Quando o homem não estiver preparado para uma determinada atividade, ele deveria poder falar ao seu gerente: – Olha, hoje eu não estou bem, não posso ficar na frente operacional. Você me desloca para outro setor? Mas quem faz esta conscientização junto aos seus trabalhadores? Uma indústria que tenha uma excelente gestão dos fatores humanos. Se este trabalhador falar que não está bem devido a problemas pessoais numa empresa que não tenha este nível de conscientização tem chance de demissão.

Muitos grandes acidentes certamente ocorreram a partir de situações como esta que o senhor está trazendo… No acidente de Piper Alpha não se fazia uma boa gestão de manutenção com a coordenação das atividades de manutenção e de processo. Eles ligaram uma bomba, cuja região estava em reparo, e aí a bomba transferiu o produto para o meio ambiente. Já no acidente de Bophal na Índia, com a empresa Union Carbide, em 1984, o pessoal de manutenção estava poupando custos, diminuindo a manutenção dos seus equipamentos. Era uma indústria que produzia metil–isocianato e que estava maltratando a instalação, diminuindo todo o investimento de manutenção, desabilitando uma série de coisas, inclusive, sistemas de proteção. Até que aconteceu o vazamento que não pode ser contido e milhares de pessoas morreram. Tudo porque estavam economizando dinheiro nas atividades de manutenção na indústria. Neste caso foi erro na gestão da indústria. Você pode errar quando começa a cortar investimentos em equipamentos importantíssimos e você pode também não dar importância aos fatores humanos dentro da indústria, o que também pode levar ao erro.

O que seus 42 anos de Petrobras lhe ensinaram sobre como tornar os processos mais seguros? Olha se você encontrar um profissional de Segurança de Processo dizendo que ele fez isso, que fez aquilo sem a contribuição de ninguém, ele é um mentiroso porque em Segurança de Processo é fundamental a diversidade de disciplinas trabalhando junto. Nada se faz sozinho, tudo depende da contribuição do especialista em determinado processo, do projetista de processo, do pessoal de instrumentação e controle, do especialista em malha de segurança. Tudo é uma análise integrada. Quando você vai fazer um Hazop todos têm que estar presentes, inclusive, o homem da Segurança do Trabalho. Tudo faz parte das disciplinas envolvidas na busca da identificação dos perigos de processos. Precisamos do suporte de todos para podermos fazer uma análise de risco que possa nos trazer o cenário mais próximo possível da realidade. A Segurança de Processo quer entender quais são todos os acidentes possíveis, e a análise de risco, que é uma das disciplinas da Segurança de Processo, por sua vez, busca visualizar todos os cenários acidentais para entender a sua repercussão e para que a indústria esteja preparada com ações de mitigação para evitá-los. A Segurança de Processo atua na prevenção, mas caso o acidente não possa ser contido é importante saber qual será sua extensão, por meio da análise de risco. Assim como o pessoal do plano de contingência vai dimensionar os equipamentos necessários para fazer, por exemplo, a coleta do óleo vazado num determinado período de tempo, com uma certa eficiência. Trabalhamos de forma proativa para evitar o acidente e de forma reativa no plano de contingência.

O senhor gostaria de acrescentar mais algum comentário? A Segurança de Processo é nova para muitas indústrias e seria muito importante que estas novas indústrias começassem a praticá-la porque ela traz resultados, traz redução de acidentes. Um acidente é muito mais caro do que uma nova formatação para melhoria da qualidade da segurança do processo. Um acidente custa muito mais caro no que diz respeito à imagem da empresa, a custos por ter que refazer o processo. Uma ação proativa é muito mais barata do que uma ação reativa. Hoje há muitas normas relacionadas às boas práticas da indústria como a ISO 31000 que é sobre gerenciamento de riscos e a ISO 27000 de Gestão de Segurança da Informação. Acho importante comentar sobre a Segurança Cibernética que está relacionada à continuidade do negócio e que pode estar relacionada à Segurança de Processo. Um hacker pode invadir uma rede aberta da indústria e interferir na operação de um oleoduto, por exemplo. Pode interferir na produtividade da indústria, no risco que aquele oleoduto impõe. Porque se ele entra dentro de um sistema informatizado industrial, ele pode entrar dentro de uma malha de segurança e desabilitá-la, se ela estiver roteando na internet. A fronteira atual é se proteger dos ataques cibernéticos mantendo a Segurança de Processo íntegra. Esta é uma das frentes mais importantes que está sendo feita: análise de risco para identificação de perigos para ataques cibernéticos para continuidade do negócio e para a Segurança de Processo.

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Aprimorando Processos. Editora Proteção Publicações. Ed. 356, p. 10, agosto/2021.

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