Especialista discute como cuidado, gestão e educação em saúde vêm redefinindo a atuação da Enfermagem do Trabalho – Redefinição na atuação da Enfermagem do Trabalho
Entrevista às jornalistas Daniela Bossle e Marla Cardoso
A saúde no ambiente de trabalho vem passando por transformações significativas, impulsionadas por novas demandas físicas, emocionais e organizacionais. Nesse cenário, a Enfermagem do Trabalho ganha protagonismo ao integrar cuidado, gestão e educação em saúde no cotidiano das empresas.
Com mais de quatro décadas de atuação, a enfermeira do Trabalho Maria Angélica Guglielmi construiu uma trajetória marcada pela experiência na indústria e pelo engajamento em entidades da área. Graduada em Enfermagem pela Universidade de São Paulo em 1982, especializou-se em Enfermagem do Trabalho no ano seguinte e iniciou a carreira em metalúrgicas. Depois, consolidou sua atuação em uma petroquímica, onde permaneceu por mais de 20 anos.
Também teve papel no fortalecimento institucional da profissão, atuando como conselheira do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo e integrando a diretoria da Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho desde a fundação. Reconhecida como Comendadora de Saúde e Segurança do Trabalho em 2014, hoje atua como palestrante.
Neste mês em que se comemora o Dia da Enfermagem, em 12 de maio, a especialista aborda prevenção de riscos, promoção do bem-estar, desafios nas organizações e o papel do enfermeiro do Trabalho diante das novas demandas do setor.
A senhora teve uma trajetória marcante voltada à saúde do trabalhador, principalmente em indústrias. Como era atuar com a Enfermagem do Trabalho naquela época? – Redefinição na atuação da Enfermagem do Trabalho
Atuar na Enfermagem do Trabalho, quando comecei, na década de 1980, era algo muito novo para mim. Eu era recém-formada e, na graduação, praticamente não se falava sobre essa área. Então, foi um exercício diário de construção. Tive mestres maravilhosos, enfermeiros incríveis, muitos seguem fazendo a diferença até hoje. Iniciei minha trajetória na metalurgia, onde a saúde do trabalhador era essencialmente assistencial. Não encontrei caminhos prontos e precisei abri-los. Posteriormente, na indústria petroquímica, pude aprender e desempenhar a função de enfermeira do Trabalho de forma mais estruturada. Mas, ainda assim, era uma atuação que exigia muito mais do que conhecimento técnico. Exigia posicionamento. Eu precisava olhar para o trabalhador de forma integral, enxergá-lo dentro de um sistema, entender o contexto em que estava inserido e identificar onde eu poderia, de fato, contribuir. Fazíamos assistência, mas também fazíamos vigilância, prevenção e, principalmente, proteção. Cada orientação, cada registro, cada intervenção era uma tentativa concreta de mudar uma cultura e valorizar plenamente a vida no trabalho. Na prática, naquele momento, o papel do enfermeiro do Trabalho ainda estava em construção. Atuamos muito no atendimento direto a primeiros socorros básicos, intercorrências, acompanhamento de queixas, mas, aos poucos, começamos a perceber que cada atendimento trazia sinais importantes sobre o ambiente de trabalho. Haviam pouquíssimas bibliografias específicas sobre Enfermagem do Trabalho. Não existiam protocolos bem estabelecidos ou diretrizes amplamente difundidas como temos hoje. A prática era, muitas vezes, uma adaptação do que aprendemos na saúde pública e na área hospitalar, ajustando esse conhecimento à realidade das empresas e aos riscos ocupacionais. Esse olhar foi se ampliando. Passamos a identificar riscos, orientar trabalhadores, organizar processos dentro do ambulatório e até estruturar fluxos que antes não existiam formalizados. Muitas vezes, era necessário padronizar registros, criar rotinas e, principalmente, sensibilizar lideranças sobre a importância da Saúde Ocupacional. Era uma atuação muito ativa, de quem não apenas executava, mas ajudava a construir o próprio espaço dentro da empresa.
Quais foram os maiores desafios que a senhora enfrentou no início de sua atuação como enfermeira do Trabalho na indústria metalúrgica? – Redefinição na atuação da Enfermagem do Trabalho
No início, o maior desafio foi compreender que eu não estava lidando com a pessoa doente, como no ambiente hospitalar, mas com o trabalhador saudável e exposto a riscos. Na graduação, aprendemos profundamente a cuidar do paciente hospitalizado. Estudei na USP, e essa base foi muito sólida. Na Saúde Pública, também aprendemos sobre prevenção, mas voltada à população em geral. Já na Saúde Ocupacional, tudo é muito específico, muito particular. Um dos meus primeiros grandes desafios foi que eu era muito jovem, tinha apenas 22 anos. Apesar da experiência em grandes hospitais, como o Hospital das Clínicas e outros serviços públicos de São Paulo, eu ainda carregava a imaturidade de quem estava começando. E o contexto do ambulatório de uma indústria era completamente diferente de tudo que eu tinha vivido. Eu era a única enfermeira em uma indústria metalúrgica de grande porte, com uma equipe de enfermagem antiga, terceirizada, com uma cultura de trabalho já estabelecida e, por vezes, com uma forma de atuação diferente da que eu buscava implementar. Isso exigiu de mim um processo muito intenso de fortalecimento pessoal e profissional. Eu precisei aprender a lidar com minhas inseguranças, a sustentar minhas decisões e a me posicionar. Outra dificuldade que enfrentei, logo no meu primeiro emprego e que, infelizmente, ainda ocorre em
muitos lugares, foi atuar em equipes incompletas. Muitas vezes, sem médico, mas com a cobrança de assumir responsabilidades que não eram da minha competência legal e eu tinha obrigação de apontar isso. Além disso, a atuação em ambulatórios de empresa é, muitas vezes, solitária. No ambiente hospitalar, você conta com inúmeros colegas, trocando experiências o tempo todo. Já na empresa, muitas vezes, você está sozinho diante das decisões.
Como foi possível reverter este cenário de dificuldades? – Redefinição na atuação da Enfermagem do Trabalho
Estudei muita química para entender os processos de exposição dentro de uma indústria petroquímica. Isso foi essencial e é apenas um exemplo de como precisei ampliar meus conhecimentos para conseguir atuar com segurança e responsabilidade. Esse cenário foi, inclusive, um dos motivos que levou à criação do GET (Grupo de Enfermeiros do Trabalho) e, posteriormente, da ANENT, em 1986. Havia uma necessidade real de construir uma rede de apoio técnico e científico. Isso porque, no dia a dia, esses desafios eram muito concretos. Lembro que, ao iniciar na indústria petroquímica, percebi rapidamente que não conseguiria atuar com segurança sem compreender os processos químicos envolvidos. Passei, então, a estudar química de forma mais aprofundada, buscando entender os efeitos das substâncias, os riscos de exposição e como agir diante de possíveis intoxicações. Isso fez toda a diferença em situações reais, como atendimentos relacionados à inalação de produtos químicos ou contato com agentes potencialmente tóxicos. Era um aprendizado contínuo, diretamente conectado à prática. Outro ponto marcante era a atuação isolada. Muitas vezes, eu estava sozinha no ambulatório, sem uma equipe completa, e ainda assim havia a expectativa de resolver situações complexas. Isso exigia muito discernimento, conhecimento técnico e, principalmente, posicionamento profissional – saber até onde ir e respeitar os limites da atuação da enfermagem. Também enfrentei dificuldades em relação à valorização da saúde do trabalhador dentro das empresas. Nem sempre havia entendimento da importância da prevenção, e muitas vezes era necessário argumentar, insistir e demonstrar, na prática, o impacto das ações de saúde.
Algum fato ou experiência lhe marcou profundamente durante a sua atuação como enfermeira do Trabalho ou à frente do ambulatório de alguma empresa?
O que mais me marcou não foi um único episódio, mas um padrão que se repetia: trabalhadores buscando conhecimento para cuidar da própria saúde. Isso transforma completamente a relação com o profissional. Faz com que a gente escute mais, aprenda mais e ensine de forma mais efetiva. Eu sempre acreditei na escuta. Muitas vezes, era em uma conversa simples, em um atendimento aparentemente rotineiro, que surgia algo maior. E ali estava a oportunidade de agir – antes que fosse tarde. Eu vivi situações em que uma intervenção no momento certo evitou afastamentos, agravamentos e até perdas maiores. E isso não se esquece. Tive o privilégio de trabalhar com equipes transdisciplinares que, em geral, respeitavam, incluíam e ouviam o que eu tinha a contribuir. Cada trabalhador que saía melhor do que entrou, cada processo que conseguimos melhorar, cada risco que conseguimos reduzir, tudo isso dava sentido ao que eu fazia. E, no fim, fica uma certeza que me acompanha até hoje: cuidar da saúde do trabalhador é cuidar da dignidade humana no seu espaço mais cotidiano, que é o trabalho. Na prática, isso acontecia muito nas consultas de enfermagem, especialmente nos exames periódicos. Era nesse momento que conseguíamos orientar de forma mais ampla sobre saúde — desde questões básicas, como alimentação adequada, até a importância do sono, da atividade física e de manter o corpo em movimento. Na época, não utilizávamos termos como “higiene do sono”, como se fala hoje, mas já abordávamos, com base científica, o quanto dormir bem impactava diretamente na saúde e na segurança do trabalhador. Essas orientações, que hoje estão muito mais acessíveis com a internet, naquela época faziam uma diferença enorme. Nós atendíamos, não apenas os trabalhadores da empresa, mas também muitos terceirizados, que, muitas vezes, não tinham acesso a convênios médicos ou a um acompanhamento regular de saúde. Isso ampliava ainda mais a nossa responsabilidade e também o nosso impacto. Falávamos sobre a importância da vacinação, orientávamos a busca pelos serviços públicos de saúde, como os centros de saúde, e reforçávamos cuidados básicos que, para muitos, não eram acessíveis no dia a dia. Era uma atuação que ia muito além do atendimento pontual, era uma oportunidade real de transformação na vida dessas pessoas.
Como acontecia na prática a atuação do enfermeiro do Trabalho?
No polo petroquímico, trabalhando em regime de turno, a equipe de enfermagem tinha um papel ainda mais relevante. Os técnicos de enfermagem rodavam nos turnos e atuavam de forma muito ativa, orientando, acolhendo e sendo referência para os trabalhadores. Era uma equipe extremamente comprometida, e tenho muito orgulho de ter feito parte desse grupo. Além das ações preventivas, havia também situações críticas que marcaram profundamente minha trajetória. Atendemos, não apenas ocorrências internas da empresa, mas também acidentes na estrada em frente à unidade. Logo na minha primeira semana na metalurgia, vivenciei um acidente grave: um trabalhador experiente retirou a proteção de uma máquina e sofreu amputação de dedos. Para mim, que ainda não tinha experiência em atendimento pré-hospitalar, foi uma situação extremamente desafiadora e, naturalmente, muito impactante. Aquilo me mostrou, de forma muito concreta, a importância de estar preparada para o atendimento de urgência, mesmo fora de um ambiente hospitalar. No Hospital das Clínicas, onde eu havia atuado, tínhamos equipe, estrutura e recursos disponíveis. Já no ambiente industrial, muitas vezes, o enfermeiro precisa tomar decisões rápidas, com recursos li-
mitados e, em alguns momentos, sem a presença contínua de um médico. Outro exemplo muito presente eram as queixas musculoesqueléticas. Ao fazer visita técnica em seu posto de trabalho podíamos identificar se havia alguma demanda ergonômica. Com orientações e ajustes, conseguíamos evitar afastamentos e agravamentos. Também vivenciei situações em que uma escuta mais atenta permitia identificar sinais iniciais de sofrimento emocional, possibilitando encaminhamentos precoces e ações preventivas.
E qual é o papel dos ambulatórios hoje nas empresas? E também da atuação dos enfermeiros do Trabalho neles.
Os ambulatórios nas empresas assumem hoje um papel estratégico dentro da gestão de saúde corporativa. Em especial, aqueles que deixaram de ser apenas locais de atendimento assistencial imediato para se tornarem centros estruturados de promoção, prevenção e vigilância em saúde. Nesse contexto, o enfermeiro do Trabalho ocupa uma posição central, podendo atuar no acolhimento e atendimento inicial de agravos à saúde, no monitoramento de indicadores epidemiológicos, na gestão de programas de Saúde Ocupacional, como o PCMSO, na educação em saúde, na prevenção de doenças e acidentes, além de realizar interface com equipes multidisciplinares, gestores e auditorias. Acredito, e sempre acreditei, em uma Unidade de Saúde estruturada com equipe transdisciplinar, composta por profissionais de diferentes áreas, atuando de forma integrada. Quando falo em equipe transdisciplinar me refiro a um modelo de atuação em que diferentes profissionais como médicos, enfermeiros, engenheiros de segurança, técnicos de Segurança do Trabalho, psicólogos e fisioterapeutas – não apenas coexistem, mas compartilham informações, responsabilidades e decisões. Nesse cenário, o enfermeiro do Trabalho desempenha
um papel estratégico como articulador do cuidado. É, muitas vezes, o profissional que mantém maior proximidade com o trabalhador no dia a dia, sendo capaz de identificar precocemente alterações de saúde, tendências epidemiológicas e fragilidades nos processos de trabalho. Essa atuação integrada permite uma abordagem mais abrangente, considerando aspectos físicos, mentais e organizacionais, contribuindo para a efetividade das ações de promoção e prevenção em saúde no ambiente corporativo.
O APH deve estar inserido dentro da área de Saúde Ocupacional? De que forma?
Na minha experiência, especialmente em ambientes industriais como química, petroquímica e metalurgia, o APH (Atendimento Pré-Hospitalar) deve, obrigatoriamente, estar integrado à Saúde Ocupacional. Não é possível trabalhar de forma dissociada. O atendimento de emergência precisa estar alinhado aos riscos específicos da empresa, aos processos produtivos e às substâncias envolvidas. Essa integração é fundamental para garantir respostas rápidas, adequadas e seguras. Vivenciei isso na prática: equipes treinadas para situações específicas, como intoxicações químicas, queimaduras e traumas. A realização de simulados periódicos fazia toda a diferença. A efetividade do APH está diretamente relacionada à preparação contínua. Simulações permitem que as equipes estejam prontas para agir de forma coordenada e eficiente. O enfermeiro do Trabalho tem papel fundamental nesse processo, atuando na organização de fluxos, no treinamento das equipes e na garantia da qualidade do atendimento.
Qual a sua avaliação sobre a situação da Enfermagem hoje no país e em especial da Enfermagem do Trabalho?
A enfermagem sempre foi uma base fundamental da saúde no Brasil. Trata-se de uma profissão essencial, altamente presente em todos os níveis de atenção, mas que ainda enfrenta desafios importantes relacionados à valorização, reconhecimento e condições de trabalho. Na Enfermagem do Trabalho, observo avanços significativos. Hoje há maior autonomia, maior exigência técnica e maior reconhecimento da importância desse profissional dentro das organizações. No entanto, ainda existem limitações. Algumas empresas mantêm uma visão restrita da atuação do enfermeiro do Trabalho, direcionando-o predominantemente para atividades burocráticas, o que representa um subaproveitamento do seu potencial técnico e estratégico. Para que esse cenário evolua, é necessário que as organizações compreendam a Saúde Ocupacional como uma área estratégica e não apenas operacional. Isso envolve incluir o enfermeiro do Trabalho nas discussões, no planejamento e na análise de indicadores. Também, o próprio profissional precisa assumir uma postura mais propositiva, buscando qualificação contínua, domínio técnico, entendimento dos processos organizacionais e atuação baseada em evidências. Não existe parar de estudar e se atualizar na área de saúde, na Enfermagem do Trabalho, também. A demonstração de resultados concretos como redução de afastamentos, melhoria de indicadores de saúde e prevenção de agravos é fundamental para consolidar o reconhecimento do enfermeiro como um agente estratégico dentro da empresa.
Acredita que a Enfermagem tem perdido autonomia na área de Saúde do Trabalhador? Qual sua percepção e por que isso vem acontecendo?
Essa percepção varia de acordo com o contexto organizacional. Em alguns cenários, observa-se uma limitação da atuação do enfermeiro, que acaba sendo direcionado para atividades mais operacionais. No entanto, considero que a autonomia também está diretamente relacionada ao posicionamento do próprio profissional. Quando o enfermeiro se apropria do seu conhecimento técnico, da legislação e do seu papel, ele amplia seu espaço de atuação. Existem também fatores externos relevantes, como modelos de gestão e, principalmente, a baixa participação dos profissionais nas entidades de classe. O fortalecimento da Enfermagem do Trabalho passa, necessariamente, pela atuação coletiva. A participação ativa em conselhos, associações e entidades científicas contribui para o fortalecimento da categoria, ampliação da representatividade e consolidação da autonomia profissional. A construção dessa autonomia não é individual, mas coletiva, e depende do engajamento dos profissionais em discutir, defender e qualificar continuamente a prática da Enfermagem do Trabalho.
A ANENT, entidade que representa a categoria e da qual a senhora foi sócia fundadora está há alguns anos inativa. Há esperança de reverter a situação?
A Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho foi, durante muitos anos, uma referência extremamente importante para a área, especialmente no campo científico. Tive a oportunidade de acompanhar essa trajetória de perto, como sócia fundadora e integrante da diretoria. A ANENT contribuiu significativamente para o desenvolvimento técnico e científico da Enfermagem do Trabalho no Brasil. Acredito que a valorização como classe é vital. Durante a pandemia tivemos muita dificuldade de manter a ANENT. Fazíamos palestras virtuais, mesmo assim, não conseguimos novos associados para manutenção mínima dos custos de uma associação. Com isso, precisamos inativá-la. Tenho toda esperança em reverter a situação da ANENT, sei da importância que teve para a classe. Porém, a entidade não se mantém sozinha. Precisa de comprometimento humano e financeiro. Fui da ANENT por quase 35 anos, e sei como faz falta. A entidade teve papel fundamental na promoção de congressos, cursos, encontros técnicos e espaços de discussão que favoreceram a qualificação profissional e o fortalecimento da identidade da categoria. A situação atual reflete um momento desafiador, não apenas da ANENT, mas de diversas entidades profissionais, que enfrentam dificuldades relacionadas à sua continuidade e ao seu engajamento. Ainda assim, acredito que há possibilidade de retomada, desde que haja mobilização
da categoria, participação das novas gerações e uma reestruturação alinhada às demandas atuais da profissão.
A senhora também dá aulas para cursos de pós-graduação em Enfermagem do Trabalho. Qual sua avaliação sobre a qualidade da formação atualmente?
Por muitos anos atuei como docente em cursos de pós-graduação na área de Saúde e Segurança do Trabalho, abrangendo diferentes formações: enfermagem, engenharia, medicina e técnicos de segurança. Ao longo desse período, observei avanços importantes, como a ampliação do número de cursos e maior acesso à formação, o que é positivo. No entanto, ainda identifico lacunas relevantes. Muitos profissionais ingressam no mercado sem compreender plenamente a realidade das empresas, os riscos ocupacionais e o papel estratégico que podem desempenhar. Há necessidade de maior ênfase em temas como análise de riscos, epidemiologia ocupacional, atendimento a emergências e tomada de decisão. A formação do enfermeiro do Trabalho deve ser orientada para a prática, com desenvolvimento de raciocínio crítico, capacidade analítica e autonomia profissional. É fundamental que esse profissional esteja preparado para atuar em diferentes contextos organizacionais, com domínio de aspectos técnicos, gestão em saúde, análise de indicadores e atuação baseada em evidências científicas. Mais do que executar atividades, o enfermeiro do Trabalho deve ser capacitado para propor soluções, participar de decisões estratégicas, auditorias e contribuir efetivamente para a melhoria das condições de saúde no ambiente de trabalho. Na realidade frenética que estamos vivendo, com tantas demandas emocionais, as alterações em NRs, em especial, na NR 1, os profissionais, não somente enfermeiros, devem estar capacitados, não apenas para o cumprimento normativo, mas para identificação precoce de sinais de danos à saúde mental, promovendo intervenções e acompanhamento adequado.
Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Redefinição na atuação da Enfermagem do Trabalho Ed. 413, p. 12, maio/2026.