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Qualificar para transformar a consulta ocupacional

Qualificar para transformar a consulta ocupacional

Soluções passam por educação e processos que valorizem a consulta

A transformação da consulta ocupacional em uma ferramenta efetiva de prevenção ainda enfrenta entraves regulatórios, culturais e de mercado. Para o gerente médico em Saúde Ocupacional do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, José Domingos Neto, a pressão burocrática permanece como um dos principais desafios ao desviar o foco da essência da área. “Quando o compliance e os prazos do eSocial se tornam protagonistas, o risco é transformar a área em um ‘departamento de documentos’, onde a emissão rápida do ASO vale mais do que a prevenção”, alerta. Segundo ele, modelos de remuneração que privilegiam volume de atendimentos e uma cultura empresarial que ainda enxerga saúde e segurança como custo contribuem para o problema.

Domingos defende a integração entre compliance e estratégia de saúde como caminho para demonstrar o impacto financeiro de reduzir acidentes, afastamentos e passivos trabalhistas, além da necessidade de tempos mínimos por consulta, decisões baseadas em indicadores e atuação interdisciplinar. “O médico do Trabalho precisa assumir o papel de integrador entre a engenharia, a ergonomia, o RH e as lideranças. Só assim a prevenção deixa de ser discurso e vira prática”, afirma.

A mudança de paradigma também passa pelo consultório e pela forma como o atendimento é conduzido. Para Neto, mesmo em cenários de alta demanda, é possível garantir acolhimento e aprofundamento clínico sem comprometer o fluxo. Ele sugere estratégias como uso de questionários prévios digitais, apoio administrativo para coleta de dados e foco na escuta ativa. “A chave não é aumentar o tempo da consulta, mas qualificar o tempo disponível”, ressalta, explicando que práticas simples, como perguntas abertas e contato visual, podem transformar a experiência. A tecnologia, acrescenta, deve ser aliada, com prontuários eletrônicos que agilizem o registro sem engessar o atendimento.

ESTRATÉGIAS

O médico do Trabalho Fernando Akio destaca que a transição de um modelo centrado apenas na aptidão para outro orientado à prevenção exige mudanças tanto nas clínicas quanto nas empresas. Ele aponta que o exame ocupacional segue sendo percebido como obrigação legal e não como oportunidade estratégica. “As empresas precisam entender que a consulta não é um custo regulatório, mas um instrumento de gestão de risco, produtividade e sustentabilidade”, afirma. Para ele, a transformação depende de prontuários estruturados, integração com a atenção primária, protocolos mais inteligentes e indicadores que avaliem desfechos, não apenas quantidade de exames.

No campo institucional, o médico do Trabalho e presidente da Abresst, Ricardo Pacheco, defende uma reconfiguração cultural e operacional por parte das empresas. Romper com a lógica de remuneração baseada em volume, garantir tempo adequado por consulta e integrar dados a painéis de gestão são pontos essenciais, segundo ele. “Hoje muitos contratos pagam por ASO emitido, não pela qualidade da avaliação ou pelo impacto em indicadores de saúde e segurança”, afirma. Pacheco cita ainda riscos como a “uberização” da SST, marcada por fragmentação, precarização e atendimentos em série, e ressalta que boas práticas, como auditorias, certificações e respeito à autonomia técnica, fortalecem credibilidade, segurança jurídica e resultados em saúde.

Além dos desafios de gestão e operação, há também uma questão formativa. Para o médico do Trabalho na CEMIG, diretor técnico-científico do IMTEF (Instituto Medicina do Trabalho em Foco) e professor do OpusCurso, Júnior Rezende, a falta de preparo técnico desde a graduação amplia distorções. Ele explica que a Medicina do Trabalho ainda ocupa espaço reduzido nos currículos, o que provoca um descompasso entre a complexidade da atividade e o nível de preparo dos profissionais. “Esse cenário faz com que muitos enxerguem equivocadamente a Medicina do Trabalho como uma opção tranquila, direta e objetiva – quase isenta de riscos. Quando, na verdade, é um ato médico complexo e carregado de implicações éticas, técnicas, legais e previdenciárias”, observa. Rezende defende que a qualificação não deve ser encarada como treinamento para emitir ASO, mas como reconstrução do sentido da prática. “O médico capacitado deixa de ser visto como carimbador de ASO e passa a exercer a Medicina do Trabalho em sua essência”, conclui.

Apesar dos entraves, os especialistas convergem em um ponto: reposicionar a consulta ocupacional como ato clínico, preventivo e estratégico é fundamental para promover ambientes mais seguros, reduzir custos e dar protagonismo ao cuidado com o trabalhador. A mudança, afirmam, passa pela formação, pela gestão e pelo entendimento de que prevenção não é discurso, é estratégia.

Ref.: Revista Proteção, Saúde e Segurança do Trabalho (Digital): Qualificar para transformar Ed. 409, p. 42, janeiro/2026.

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